Nova Perspectiva

4 de junho de 2015

Nossa morte

Via reprodução
Eu te peço pra ir embora implorando secretamente pra que você me convença de que ainda dá tempo. Não dá? Você ajeita a mala e me olha de canto tentando expressar o que nem todas as palavras seriam capazes de dizer. Eu sei, amor, toda história acaba, mas a nossa morreu tão prematuramente que a dor aguda alfinetando o canto esquerdo do peito não chega nem a ser pelo que ela foi, mas pelo que deixou de ser. Deixamos. Podíamos ter sido muito. Tinha amor de sobra, não tinha? E tinha sincronia também. E eu queria que fosse você, sabe? O cara da minha vida. Você não queria?

Quem sabe se o laço não tivesse virado nó a gente não viesse a ser um desses casais que comemoram as bodas de ouro cercados de netinhos inquietos correndo pela casa. Só que você não gosta de crianças, nunca quis ter filhos nem netos nem bisnetos, preferia que fosse para sempre só nós dois e alguns amigos pra beber uma vodka - ou um café - aos fins se semana. Eu só pensava em família grande, todo mundo reunido em volta da mesa durante algum almoço de domingo e rindo de piadas comuns. Você nunca foi comum. Mas podíamos, também, ter nos tornado um desses casais aventureiros, faríamos uma dessas viagens loucas pelo mundo, dentro de um barco pequenininho - para vivermos perto um do outro -, pintado de branco, isso se eu não sentisse vertigem só de pensar no oceano, se viver em auto mal não me causasse repulsa imediada, quase um reflexo do meu estomago. No fundo, eu sempre fui bem mais pé no chão que você.

No poema da vida nossos versos não rimavam. Eu era calma e você terremoto, eu era hoje e você amanhã. Eu pedia menos e você escancarava mais. Eu era in você out e a gente era um desses acordes desafinado de uma melodia muda que o amor não soube cantar. Infelizmente. Não teria dado certo, a gente sabe.

Te observo piscar os olhos repetidas vezes barrando toda tristeza que implora pra sair e sorriu escondida tentando fixar pela última vez essa cena em mim, cê sempre teve essa mania besta de segurar as lágrimas achando que é o único jeito de ser um homem forte. E eu sinto uma vontade louca de correr até você e te abraçar e chorar bem baixinho no seu ombro, é que não dá pra ser forte sempre, rapaz. E tudo bem ser meio fraco de vez em quando, tudo bem deixar escapar que a falta vai ser grande e o coração vai doer um bocado porque depois passa, não passa? E a gente fica forte de novo. Sinto seu rosto grudar no meu e engulo o cheiro da sua nuca, pra que, de algum jeito, você continue dentro de mim.

- Não dá mais, não é?

Olho pra baixo tentando recuperar o eixo que quase nunca me abandona.

- Nunca deu, rapaz.
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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.