Nova Perspectiva

22 de junho de 2015

Foi amor, mas não era pra ser

Via reprodução
Ensaio ligações no meio do expediente tentando me convencer de que talvez a gente mereça um último adeus. Imagino sua voz rouca por causa do cigarro do outro lado e a oscilação de espanto ao reconhecer a minha. Só queria dizer que ando pensando muito em nós dois. Quase todo instante, na verdade. E que eu ainda tenho marcas do seu nome tatuado em mim. Digito mensagens e apago e redigito "to com saudades, moreno". Um grito mudo numa tela em branco de algum smartphone moderno. Deleto. Como será que você está agora? Como será que estaríamos agora? Nosso amor teria durado? Estaríamos juntos? São tantas lacunas que eu já nem me lembro mais se a gente queria que fosse pra sempre. Talvez você quisesse. No fundo eu sei que queria, só que eu sempre tive medo, do compromisso, de nós dois, do amor, desse lance ser eterno. Pra sempre é tempo demais pra quem vê pouco tempo na vida.

Você tinha aquela pose culta de quem sonha em viver um romance do Alencar, cheio de complicações e provações e romantismo e com aquele maldito sofrimento excessivo que faz a gente achar que sofrer de amor é bom, enquanto eu sempre preferi os livros do Machado. Mais pé no chão, mais realista. Sem todo aquele melodrama que faz a gente ter vontade de cortar os pulsos e abraçar a protagonista. A gente não fluía, sabe? Mas mesmo assim eu te amava. Muito. De sentir o coração sair do lugar só de ouvir a sua voz. E aqui dentro, baixinho e em segredo, eu torcia pra que a gente desse certo, eu pedia pra que sei lá quem que determina essas coisas fizesse o nosso final ser feliz. Nem do Alencar e nem do Machado, só nosso. Mas não deu.

No fundo, a gente não suportou essa distinção toda que nos separava. Essa história de que opostos se atraem só funciona nos filmes da Disney, não tinha como a gente sair do papel pra ganhar vida se as nossas linhas mal de entrelaçavam. Fomos o acaso de um caos que virou caso, contrariando a ordem natural dos casais de boteco, e achamos que podia dar certo. Não demos. E por mais que eu tivesse aquela pose de mulher maravilha e aquele sorriso irritantemente grudado nos lábios, enquanto você chorava e recolhia os seus livros da prateleira da sala, eu senti uma vontade desesperada de permitir meu corpo desabar naquele carpete de madeira e vomitar meu coração. Doeu pra caralho, moreno, te ver esvaziar o armário e levar embora todos os nossos sonhos e promessas e certezas, enquanto cada poro do meu corpo transpirava você. E quando cê foi, eu passei uma semana chorando quietinha em cima do seu travesseiro desejando que você se desse conta de que tinha me esquecido sozinha.

Durante esses sete dias eu pensei inúmeras vezes em disparar a sua campainha pra te fazer engolir todo o seu medo, porque eu tava assustada também e aquilo era tudo muito novo e a gente até podia ser um fardo pesado demais, mas juntos, talvez, pudéssemos empurrar um pouco mais essa história. Não podíamos? E a resposta estava logo na minha frente, na gaveta imaginaria dos nossos objetivos, na sua busca desmedida por uma família enquanto eu presava, acima de tudo, minha liberdade emocional, no seu desejo por uma casa térrea com quintal e cerca branca e na minha pretensão de conhecer o mundo, na sua ânsia por atropelar os dias na presa de viver o futuro enquanto eu aproveitava os segundos dia após dia. Por mais que a gente quisesse desesperadamente viver esse romance, nosso laço era sensível demais pra aguentar o tranco de uma história como a nossa. A gente foi amor, mas não éramos pra ser.

Por isso, enquanto meu chefe me alerta que o relógio anuncia o meu horário de almoço, eu me dou conta de que, bem ou mal, estamos melhor do que estaríamos juntos. A gente podia ter arrastado por mais tempo aquela situação toda, mas hora ou outra os pneus iam arriar e alguém ia ter de pedir pra sair. E eu não preciso te perguntar nada, pra ter certeza disso. Obrigada por ter tido coragem de abandonar o barco primeiro, assim eu consegui remar até chegar em terra firme.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.