Nova Perspectiva

7 de junho de 2015

Fica até amanhã

Via reprodução
Você termina de ajeitar a camisa no corpo, como se alguma coisa pudesse ficar desajeitada nele, depois calça os sapatos e senta bem devagarinho na beirada da cama me engolindo com os olhos enquanto eu finjo dormir. Seus dedos tocam o meu rosto tirando alguns fios de cabelo bagunçado e as nossas respirações embalam algo semelhante a nona sinfonia de Beethoven. Quando você chega pertinho assim, ao ponto deu sentir seu hálito entrar por cada via do meu corpo, eu posso jurar que o mundo inteiro congela. Nada mais importa, nem o vizinho de cima que toca bateria a madrugada inteira, nem a conta de luz que vence amanhã, nem os trabalhos atrasados da faculdade e aquele artigo que meu chefe pediu fazem duas semanas. É só você, e isso assusta.

Eu não sou acostumada a essa dependência toda, não aprendi a lidar com essa necessidade de chegar em casa e ouvir a sua voz na secretária eletrônica dizendo que passou em algum café e lembrou de mim. Você já se tornou meu único pensamento do dia. É você na fila no banco, no novo CD da nossa banda preferida, no meio do congestionamento e aqui dentro de mim, ocupando quase todo o cantinho esquerdo do meu peito. E eu queria saber se pra você também é assim, se o seu coração também dispara quando alguém diz o meu nome e se o seu sorriso tem estado mais solto, entregue pro nada no meio do dia enquanto imagens da nossa última noite bailam na sua cabeça. Sinto uma vontade desesperada de te perguntar se você já passou por isso antes e quase abro os olhos, mas a ideia de que tudo não passe de uma miragem faz com que eu os aperte ainda mais.

Eu nunca senti nada parecido com essas borboletas dentro do estômago e a voz meio embriagada de amor, nem pensei que sentiria. Pelo contrário, sempre me orgulhei do meu equilíbrio emocional, do sonho ousado de morar sozinha de cidade em cidade atrás de aventura e nunca, nunquinha, criar laços. Não podia imaginar que logo eu, algum dia, pediria pra alguém ficar até de manhã. Sinto seu lábio tocar na minha maça do rosto e seu corpo desprender da cama e instintivamente te seguro. É quase involuntária a forma como a minha mão vai parar no seu antebraço, e você sorri deixando seus olhos pousarem sobre os meus. Já decorei cada pedacinho do seu rosto: a pinta minúscula do lado da orelha esquerda, a barba malfeita perto do queixo, a sobrancelha que sobe instantaneamente quando você é pego de sobressalto e o sorriso sempre mais puxado pro lado direito. Suspiro profundamente tentando encontrar um jeito de falar que você não pode ir embora, nunca mais, porque eu desaprendi os passos do desapego e não quero achar o caminho de volta. E eu te peço pra ficar hoje. Só hoje. Sei que isso soa um tanto paradoxal saindo logo de mim, mas, por favor, fica até amanhã. Você pisca bem devagarzinho várias vezes seguidas caindo com o corpo pra cima do meu, e a minha boca fica seca, e você me beija ardentemente, e o coração acelera. Só se tiver café na cama, sussurra. Sorrio: e bem forte.

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2 comentários:

  1. Muito amor por esse texto. Vi o começo no facebook e agora fiquei mais apaixonado ainda por ele completo.

    Boa noite, bjos.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.