Nova Perspectiva

9 de junho de 2015

Eu não amo você

Eu amei aquele beijo roubado no meio da chuva que você não me deu, amei aquela ligação no meio da madrugada que não chegou e aquele buquê de flores da floricultura que abriu aqui na esquina e você não comprou. Eu quase amei aquele dia em que você podia ter pedido pr'eu ficar um pouco mais, mas não pediu. E eu só não amei porquê doeu, aquela indiferença toda, sabe? Aquilo matou um pouco do que eu sentia. Eu disse que precisava ir porque estava ficando tarde e você se despediu com tanta presa que não teve tempo pra perceber o quanto eu ainda queria o seu corpo no meu.

Amei cada declaração que você não fez, cada almoço em família que você não foi, cada estreia de filme que você não me convidou pra assistir. Amei cada taça de sundae que a gente não dividiu, cada jogo do seu time que você não me chamou pra ver e cada festa que a gente não foi junto. Amei aquele jantar romântico que a gente não teve, aquela tarde no parque que não aconteceu e as fotos que você não quis tirar. Quase amei aquele dia em que sua mãe chegou de repente e estávamos só nós dois rindo das nossas diferenças e ela quis saber quem eu era, e você respondeu que era só uma grande amiga. Grande amiga? Você nem percebeu que o quanto meu sorriso mudou, ficou meio caído, sem graça, daquele jeito que fica quando a gente quer, desesperadamente, chorar. E eu cheguei em casa vomitando uma tempestade pelos olhos. Naquele dia eu quase amei você. Quase quis passar o resto da minha vida ao seu lado. Quase.

Eu amei, muito, todos os aniversários de namoro que a gente não teve, todas as viagens que a gente não fez, todos os poemas que você não me escreveu. Amei aqueles seus beijos que não calaram os gritos que eu não dei. Aquele pra sempre que você nunca disse. Aquele eu te amo perdido no que a gente quase foi. Quase amor. Amei aquilo tudo que você quase fez. Eu amei todas as lembranças de um passado que não existiu. De um futuro que não chegou. De um presente que eu sonhei. Amei tudo aquilo que você estragou, sem querer ou propositalmente. Eu amei uma história que não aconteceu, um cara que não é de verdade. O que a gente quase se tornou. Amei um romance que quase virou realidade, que quase foi best-seller, mas que não saiu da estante imaginária do meu coração.

Eu não amo você. Nunca amei. Eu amo aquilo tudo que a gente podia ter sido, e você não deixou.

7 comentários:

  1. Que texto lindo! Preciso dizer que me tocou um pouco de alguma forma. Passei por algo ~parecido~e entendi MUITO BEM esse texto... hehehe

    http://anneandcia.blogspot.com.br/

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  2. Pior que não ser, é poder ter sido.
    Uma pequena sensação que mistura impotência de desejos e falha de devoção.
    Mas, ao redor das suas palavras, a evolução chegou no final. E amores existem o bastante para funcionar com os personagens certos.

    Parabéns Gaby.

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  3. até chorei lendo aqui, historia da minha vida no momento :(

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  4. Ah que texto mais lindo..
    Me tocou de verdade.
    Um beijo

    Dicas para Todas

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  5. Nossa, acho que a gente se machuca muito pensando em como as coisas poderiam ter sido, cria uma expectativa e carinho nas pessoas por conta de expectativas, porque na nossa mente seria perfeito, lindo. Seu texto descreve tão bem isso, me senti encaixada nele, amei ♥

    http://www.leitecombiscoitos.com/

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  6. Ótimo esse quase amor, esse romance as avessas, super original. Esse amor platônico, atônito, surreal, verdadeiro, Gabi. Vi em você uma escritora de mão cheia e de muito estilo. Beijos!

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.