Nova Perspectiva

29 de junho de 2015

Drama

Via reprodução
Tem dias que a gente precisa dar um tempo de tudo e de todos para se encontrar dentro de si mesmo. Tenho tido uma semana desgastante, meu corpo transpira um grito abafado de socorro, a cabeça, por dentro, gira 365 graus sem trégua e isso tudo nem é culpa do trânsito caótico de São Paulo, nem da faculdade que me lota de trabalhos e provas e textos gigantescos ou da academia massacrando meus músculos, a culpa dessa exaustão toda ta dentro de mim, mais especificamente, escondida no lado esquerdo do peito.

Eu penso muito no que não deveria pensar para conseguir fugir do que anda exigindo minha concentração, eu tenho essa mania de trancafiar o que eu deveria me permitir sentir, eu, logo eu, sempre empossada dessa fantasia de mulher forte e corajosa estremeço só de pensar em assumir meus hematomas, fico acuada diante a possibilidade de verem meus machucados, minhas cicatrizes, me escondo por medo de parecer mais fraca do eu deveria ser, do que eu gostaria de ser, mas tem momentos em que a gente precisa esquecer do mundo e admitir para nós mesmos: a vida ta uma merda - bem grande - e eu não to conseguindo dar descarga nessa fase. Fui adiando a reforma interna, tratei de preencher as prateleiras, debaixo da cama e os tapetes da sala com dramas velhos que eu não soube lidar, mas de repente toda poeira resolveu se virar contra mim e invadir as áreas secretas do meu coração, foi a gota d’água, tava na hora de dar pausa, respirar fundo e me permitir sentir, me permitir aceitar que ta doendo, ta doendo pra caralho e que é dessa dor que vem o meu cansaço.

A semana correu contra o relógio me deixando com saldo negativo de horas, aí chegou o sábado e a agenda lotada de afazeres e trabalhos e baladas, cedeu lugar pra uma xícara de chocolate quente e um pouco de colo de mãe. Acabou, acabamos e eu até já aceitei, o nosso pra sempre foi eterno na medida em que o nosso amor suportou os seus deslizes, ok, não dava mais, eu sei, mas relutei tanto em retirar o sorriso do rosto que cavei a cova do meu ego, desabei na frente do mundo sem vergonha nenhuma na cara, vinha tentando levar o sofrimento nas costas sem deixar transparecer a fossa que eu estava, bancar a atriz desgastou minha armadura, eu te liguei meio alcoolizada e joguei sobre você um caminhão vomitado de dor, de mágoa, de raiva, do outro lado da linha você só ouvia e sussurrava alguma coisa que eu não me lembro bem, mas não importa, eu precisava deixar a alma vociferar que você era o culpado pela minha insônia e falta de apetite, precisei estampar pra quem quisesse ver que o bom moço era só mais um filho da puta, o pior deles. Depois eu desliguei o celular e sabe se lá como eu vim parar em casa.

Acordei com todas as feridas abertas implorando por um cuidado especial, vesti meu luto e entrei em stand bye, foi necessário, ta sendo, nada melhor que um tempo para se permitir engolir uma dose ou duas de egoísmo, para se deixar parecer a maior coitada do mundo, a gente tem direito de protagonizar um drama de vez e nunca, esse espetáculo é meu e eu não quero mais fugir do palco. Hoje eu admito que ta sangrando, sim, to tendo uma hemorragia de desamor e a única forma de me curar dela é aceitar que o melhor lugar do mundo ta sendo a minha cama e um pote de sorvete de creme. Tá doendo sim, mas vai passar, vai sarar, não hoje, nem amanhã, mas dia desses eu vou acordar rindo desse dramalhão todo. Tá machucado pra cacete, e talvez eu até esteja exagerando um pouco, mas e daí? Que atire a primeira pedra quem nunca encenou, ou quis encenar, a mocinha do coração partido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.