Nova Perspectiva

24 de junho de 2015

Acaso

Via reprodução
Quando você chegou eu estava machucada demais pra perceber que cê tinha ai dentro o remédio pra curar todas as minhas dores, eu tava tão cega que não consegui enxergar o que você, naqueles inesgotáveis convites pra sair e nas intermináveis mensagens de madrugada, já sabia: a vida tinha nos dado outra chance. A verdade é que quando a gente se quebra em todos os lugares possíveis, acreditar de novo se torna um desafio muito grande, e naquela época eu não podia apostar em nada que pudesse me despedaçar ainda mais. Eu não daria conta de mais um tombo.

No fundo, eu não queria ter que abrir de novo a minha casa pra que alguém viesse tirar tudo do lugar e fosse embora logo que a bagunça apertasse, eu já tinha me doado demais pra essas histórias que teimavam em acabar com um drama americano na televisão e um pote de sorvete no lado vazio da cama. Você sabe quantos meses levam para um cheiro sair de dentro de nós? É o suficiente pra anular o desejo de sentir de novo, seja o perfume que for. Eu tava com o nariz fechado quando você cismou em trazer os seus aromas pra cá e foi difícil resistir ao teu odor de primavera, com toda aquela alegria saltando os lábios e a persistência em me convencer de que se eu também quisesse, a gente podia ser grande coisa.

E eu quis desde o primeiro instante em que os nossos olhos se enxergaram, rapaz, ali naquele dia em que o mundo ficou pequeno pra nós dois e o cupido acertou a flecha, eu já sabia que te queria, só demorei pra engolir que mesmo naquela situação toda e com o coração cheio de feridas espalhados você era a minha paz - e o meu amor. E que eu queria que desse certo, que fosse você e que fosse eu e que fosse a gente, em algum momento. Embora eu tenha demorado pra confessar e tenha armado maneiras de fugir do que a vida tinha armado pra nós, eu nunca deixei de ter certeza de que alguma coisa me faria voltar pra você. Mesmo eu tentando barrar tudo que pudesse cismar em nascer dentro de mim, você floresceu escondidinho, num canto sem luz e sem água, lutando pela própria existência e quando eu dei por mim a coisa toda estava maior que o esperado, eu já sonhava acordada com o nosso casamento e pensava nos possíveis nomes para os nossos filhos.

Quando eu fui perceber que tinha deixado a janela aberta, você já tinha pulado e instalando sua vida na minha, e ali, depois daquelas tentativas toscas de fingir que nada estava acontecendo, eu não queria mais que você saísse. Nessas linhas da vida nós fomos um desses acasos bonitos que o destino cria pra compensar todas as rasuras das outras páginas. E tem compensado muito.

4 comentários:

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  2. Oi, Gabi, pode te chamar de Gabi? Enfim, você passou lá no meu blog e quando vim aqui, deparei que já visito seu blog há anos luz haha. Apesar de não comentar muito, mas sou sua leitora há um tempinho haha. Quando li esse texto pensei em certo momento da minha vida, me descreveu muito naquela época, é uma coisa bem mágica, estranha e rápida demais, quando estamos apaixonados, não?

    http://www.beginanytime.com/

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  3. Oi Gabi!
    Adorei seu texto, você escreve muito bem!
    Você me passou muita emoção nesse texto,
    E me fez relembrar a época em que conheci meu Marido!
    Beijos!
    www.lindaestante.com.br

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  4. Esse texto me fez pensar muito sobre um rapaz que conheci e me neguei a dar uma chance para nos por medo. Como me neguei a sentir algo, ele acabou indo embora, e sortuda será aquela que se relacionar come ele

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.