Nova Perspectiva

11 de maio de 2015

O problema é o não dito

Via reprodução
Semana passada vagando pelos canais da tv a cabo eu esbarrei em um filme tão sem sentido que chegava a ser engraçado, larguei o controle e fixei os olhos na tela, lá pela metade lembrei de todos os filmes sem noção que faziam o nosso domingo valer a pena e no impulso digitei um sms que autoritariamente pedia “liga a televisão e coloca agora no 75 para dar risada comigo”, em seguida a covardia tomou conta da situação e eu voltei os olhos pra tv, sem mandar mensagem alguma.

Essa não foi a primeira e nem a última vez que eu pensei em você e quase fui atrás, mas acabei deixando para lá. Talvez você também tenha pensado em mim e tentado me achar diversas vezes, mas desistiu quando estava perto o suficiente para lembrar que não valia a pena.

A gente sempre foi mais saudade do que amor, mais silêncio que palavras. Os nossos olhos berravam aquele sentimentalismo todo vomitado dentro do peito, mas a boca permanecia imóvel, muda. Confessar tudo o que prendíamos no coração era praticamente um crime, no qual a pena era estar preso para sempre um no outro. Perigoso de mais para quem nasceu pra ser livre.

Os nossos “eu te amo” eram sorrisos serenos no meio de uma festa caótica, eram andar de mãos dadas às seis horas na linha vermelha, eram filmes babacas nas tardes de domingo. Eram subentendidos, não ousávamos, nem podíamos, falar. E nessa de achar que a vida pode ser simples assim, a gente foi deixando o rio seguir seu curso e não percebemos que o barco tava furado bem nos lugares em que a gente ignorava. A ausência do “senti sua falta” “pensei em você hoje” “fica um pouco mais” foi abrindo lacunas dentro de nós dois.

Achávamos que éramos demasiadamente corajosos, que engano. Meu Deus! Que engano... Morríamos de medo de onde essas águas podiam chegar, enrolávamos um pouco em cada parada e pedíamos calma. Calma de que? Calma no que? Antes tivéssemos ouvido os que diziam que o amor tem presa. Antes tivéssemos abandonado o chão e criado assas. Nós nos passamos pra trás em uma tentativa tosca de vencer o curso natural do que se espera desses casos e acasos que a vida cria. Perdemos, e nos perdemos um do outro, também. Subestimamos o nosso fim, e acabamos tão indesejadamente quanto começamos. Tão silenciosamente quanto nos amamos.

Cada um seguiu para um lado e nenhum dos dois voltou pra ver se tinha sobrado alguma coisa. Eu abandonei um pouco do meu cheiro no caminho, pra quem sabe se um dia você quiser me achar, e encontrei um pouco do seu tabaco como indicio das curvas que você tem dado. Mas nos faltou coragem para seguir as pistas. Nos faltou coragem para enviar as mensagens, para tocar a campainha e pra quebrar a barreira da nossa mudez. Faltou coragem pra ligar na madruga de uma segunda-feira com a voz embriagada de tanto chorar, implorando pra que ainda dê tempo do nosso amor sair do peito e ganhar o mundo. Somos dois medrosos na arte de jogar com o coração, calamos o que dói e matamos o que alivia. E fingimos que não importa mais, mesmo importando mais que tudo.

O nosso problema, meu amor, sempre foi o silêncio dos gritos que a gente não deu. 

E não vamos dar.

5 comentários:

  1. Cara, que lindo! <3

    "Somos dois medrosos na arte de jogar com o coração, calamos o que dói e matamos o que alivia. O nosso problema, meu amor, sempre foi o silêncio dos gritos que a gente não deu."

    <3 <3 <3

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  2. Que lindo Gabis.
    No meu caso faltou coragem pra pedir pra ficar. =/

    O nosso problema, meu amor, sempre foi o silêncio dos gritos que a gente não deu.
    Essa lembrou algo que já escrevi sobre escrever, que escrever é a melhor forma de gritar sentimentos sem fazer barulho, e tu gritou bem aqui.

    beijo

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  3. Gabrielaaaaa
    eu sou muito sua fã, garota
    sério
    quase chorei agora
    que inspiração é essa?
    O final completou, encaixou perfeitamente


    http://karinapinheiro.com.br/a-volta-de-beto/

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  4. Que texto lindo! sério você escreve muito bem, ''Calma de que? Calma no que? Antes tivéssemos ouvido os que diziam que o amor tem presa.'' <3

    Beijos,
    http://quemvepensah.blogspot.com

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  5. Sabe, dificilmente eu me emociono lendo alguma coisa. Embora não pareça, faço pose de durona a maior parte do tempo. Mas esse seu texto quebrou minhas pernas e tudo mais quanto tinha direito. Eu sei exatamente o que o eu lírico sente. Várias vezes quis gritar com que ele ficasse, e várias ele deu a entender que queria ficar. Mas ele foi. Foi tão rápido que mal vi ele indo, e ontem soube que ele está na segunda namorada depois de mim, enquanto eu permaneci sozinha todo o tempo, talvez por opção, não sei. Não sei bem o que sentir. mas esse seu texto realmente mexeu comigo. Aliás, seu blog foi um dos primeiros que li quando decidi o que queria mesmo escrever, então tu tem uma importância muito grande na minha vida, mesmo sem saber. Muito obrigada! Um abraço. 48janeiros

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.