Nova Perspectiva

12 de abril de 2015

É mais sobre mim do que sobre você

Via reprodução
Quando você foi embora eu achei que não ia aguentar, sabe, eu passei anos idealizando essa nossa história e, não me leve a mal, eu esperava muito mais. Mais da sua entrega, mais do seu amor, mais da nossa história, mais do seu carinho. Quando você veio eu achei que, finalmente, meu conto de fada ia sair do papel, mas aí você não seguiu o script, meteu os pés pelas mãos, falou na hora errada, não falou na hora certa, ignorou todos os momentos e todas as fantasias que eu criei na minha cabeça durante anos e anos. Você destruiu tudo que era pra ser nosso quando resolveu agir por conta própria, e eu agi feito menina mimada, bati o pé, emburrei, fiz bico e até chorei quietinha no canto da sala.

Borrei o rímel, gastei batom vermelho, treinei algumas receitas, aprendi sobre futebol e cerveja, mudei meu corte, meus gostos e até os meus móveis, mas você não me acompanhou. Fez questão de estragar todo romance que eu criei, fugiu do papel de namorado perfeito e encenou o cara babaca. Eu me adaptei em você, porque você era meio idiota, mas ainda era o cara que eu tinha sonhado quase a vida toda. Eu quis que você entendesse que aquilo era tudo pra mim. Você era tudo pra mim. E a gente foi levando os dias com aquele namoro água com açúcar de facebook, pros outros curtirem e compartilharem. O fardo ficou pesado, eu esperava muito e você se deu tão pouco. Mas ok, eu repetia pra mim: "não importa, é ele", mas não era eu, né!? Eu sei, descobri isso no dia em que entrei em casa e suas coisas estavam na porta.

Você pulou do barco que, tadinho, já tava todo furado, me largou em auto mar e nem olhou pra trás. Doeu muito, cara, te culpei por ter estragado toda a nossa história, te transformei em personagem peincipal dos meus textos tristes sobre coração partido. Devorei potes de sorvete nas noites em que a sua falta foi insuportável, te pintei de monstro para as minhas amigas e depois chorei me desculpando pro além. Te persegui nas redes sociais e na vida, cismei que tinha outra, sei lá, uma loira bronzeada, alta, gostosona, uma dessas ladras de história de amor. Procurei desculpas, criei maneiras de te encontrar, armei coincidências, fui nas mesmas baladas, sai com seus amigos, beijei uma porrada de cara na sua frente, implorei mais uma chance afogada em lágrimas, me fiz de vítima, de forte, de frágil, de indiferente, tentei de tudo, te odiei e te amei, fui louca, cega, apaixonada, pirada, até que em uma dessas vezes alguém me disse que o problema era eu, que eu nunca te amei, só quis viver a história perfeita. Então o problema era eu, logo eu?

Sim, cara, desculpa esse drama todo, desculpa essa história toda, desculpa ter te transformado em personagem de um romance que não valia nada. A verdade é que eu espero demais, sonho demais, idealizo demais. Eu crio roteiros e fantasio momentos, programo falas, atos, cenas e esqueço que a vida de nada tem a ver com o teatro. A realidade não se iguala com a ficção. A culpa foi minha por esperar de você muito mais do que você era capaz de me dar, a culpa foi minha por te pedir pra ser alguém que você não era, por te cobrar um script que você não tinha obrigação de saber. Essa história toda, desde o começo, é muito mais sobre mim do que sobre você. É sobre a minha mania de escrever a vida, de criar personagens e esperar que sigam à risca o roteiro que eu invento. É sobre a minha ânsia de sonhar de mais, esperar de mais, querer de mais. É sobre eu ter planejado o nosso amor sem me importar se você também queria, sobre eu ter te metido na minha história como se você não tivesse direito de recusar. Eu te escolhi a dedo pra contracenar comigo no meu próprio espetáculo e nem te perguntei se era isso que você queria.

Quando você foi embora não tava simplesmente me abandonando, tava fugindo dessa redoma ilusória que eu criei, tava deixando de ser o príncipe encantado pra ser você mesmo. E hoje eu te entendo, você precisava de algo de verdade, sem sentimentalismo ensaiado pra foto de rede social. E eu precisava aprender na marra que a vida não é um livro, que as coisas não acontecem como a gente quer e que a culpa não é nossa. Pra dar certo tem que ser de verdade, tem que estar nas entrelinhas, acontecer por acaso, sem ensaio, sem programação, sem forçar a barra.

Obrigada por ter destruído a minha história e salvado a minha vida. Quem sabe um dia a gente não se encontra? Deixo que o destino me conte, na hora certa, e que me surpreenda sempre que der.

7 comentários:

  1. Que lindo texto, porém triste. Me identifiquei com diversas passagens. Também sonho demais, idealizo demais... e deveria ter os pés mais firmes no chão. "Eu crio roteiros e fantasio momentos, programo falas, atos, cenas e esqueço que a vida de nada tem a ver com o teatro. A realidade não se iguala com a ficção" ---> trecho perfeito.

    Bjos!

    http://sonhos-empoeirados.blogspot.com.br/

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  2. "E eu precisava aprender na marra que a vida não é um livro, que as coisas não acontecem como a gente quer e que a culpa não é nossa."

    Precisei reler três vezes pra tentar entender as entrelinhas e só posso dizer que cê cresceu gata, ficou mais perceptiva, tão perceptiva que como diria o Caio, enfiou o dedo na garganta sem ter medo do resultado.
    E fez pior, olhou pra dentro de ti pra entender que sonhas demais (sonho muito mais) pra começar a viver de verdade. Só espero que não deixe de sentir nunca, o mundo anda carente de pessoas que sentem.

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  3. Sério! Texto incrível e que fez "plim plim" na minha mente, sabe? Tipo uma luz! :) O problema é que a gente idealiza muito, espera muito e acaba vivendo num mundinho cor de rosa e esquece de viver a realidade. Aliás, essa realidade, na maioria das vezes, pode nos surpreender e ser muito melhor do que um simples contos de fada. Texto para imprimir e reler mil vezes. Parabéns! <3

    Beijocas,
    Carol
    www.pequenajornalista.com.br

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  4. Que texto lindo,Gabi! *-*
    Me identifiquei tanto, as vezes fico programando e ensaiando as coisas como se fosse um filme, ai acabo estragando tudo.
    Beijos, Ana do dia ♥

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  5. E eu precisava aprender na marra que a vida não é um livro, que as coisas não acontecem como a gente quer e que a culpa não é nossa - nem sei o que comentar, só sentir <3
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  6. Menina, você não sabe há quanto tempo eu procuro um blog com tanto potencial como o seu pra seguir, Sempre que procuro blogs, a galera me indica o clichezão, aquele blog que todo mundo tem igual. Mas o seu é DEMAIS, você escreve muito bem. Que texto é esse? É o texto da minha vida, me vi exposta ali, representada pelas tuas palavras e gostei, porque foi um tapinha na minha cara, até que bom.
    Estou te seguindo, espero encontrar mais textos maravilhosos por aqui.
    http://www.leituradascinco.com/

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.