Nova Perspectiva

29 de março de 2014

Às avessas.

Imagem retirada do site weheartit
Raramente concordávamos em algo, eu sempre exclamava, vociferava, vomitava, você acalmava, pontuava, calava. Éramos yin e yang, não tínhamos sintonia alguma, mas quase sempre nos completávamos. Eu era confusão, bagunça, desordem, você era a paz. A minha paz. Eu ouvia jazz, folk e bossa nova, você rock, black, rap. A gente pouco se ouvia. Nossa sinfonia era caótica, poucos entendiam, às vezes nem nós mesmo, mas eu gostava. Gostava de você, também, e desse seu jeito de querer tudo pra amanhã, ou depois. Gostava quando suas mãos deslizavam sobre a minha coxa embaixo da mesa de algum restaurante, ou de quando sua respiração, ofegante, harmonizava-se com a minha.

Eu gostava do jeito como seu cheiro agasalhava minha alma e do nosso jeito desalinhado de escrever juntos a nossa história. A gente traçava entrelinhas o tempo todo para que ninguém mais decifra-se as nossas frases, éramos o segredo um do outro, mas eu tinha urgência em viver o nosso amor. Eu tinha urgência em tudo e você não. Cê’ tinha aquele equilíbrio todo e aquela pose mansa, vivia centrado em viver um dia de cada vez de uma maneira irritantemente serena, perto de você eu era um furacão e isso te assustava. Mas eu não ligava, confesso até que me divertia. Pra você eu era um misto da Gabriela, do Jorge Amado, e da Capitu, do Machado de Assis. Eu amava a imagem que você tinha de mim, mesmo sendo um pouco distorcida e exagerada. Eu amava os exageros entre a gente. Você detestava, queria sempre menos, menos dos meus dramas, menos dos meus escândalos, menos do meu amor. 

Você soava um “inho” e eu logo contradizia com um “ão”, e a gente discutia só pra terminar na cama, juntos, ocupando o espaço que só um corpo deveria ocupar. Vez ou outra ficava tudo bem, você aplaudia nossa trégua entre um round e outro, eu emburrava, fazia cara feia pra toda aquela paz e você enlaçava seus dedos nos meus cabelos forçando com os lábios o desfazer do meu bico. Éramos isso: um mix de desejo, paixão e raiva. Fomos uma tentativa tosca de encenar Romeu e Julieta do nosso jeito, às avessas. Tínhamos tudo para ser um casal de cinema e terminarmos juntos, como Emma e Dexter*, ou qualquer outro casal que odiosamente se amava. Só que o nosso amor enfartou, infelizmente, e não deu tempo de nos salvar. No fundo eu só queria que a gente tivesse dado certo, ou que a gente tivesse dado em alguma coisa. Sei lá.

*livro/filme "Um dia"

27 comentários:

  1. Poxa, que texto cheio de emoção. Verdadeiro.
    Nem sempre dá certo Gabi. E a culpa não são do quão diferentes somos. São os desejos incompatíveis. Nunca dá certo quando ambos caminham direções contrárias. O sentimento avesso é principal culpado.

    Beijo!

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  2. que amô ♥
    seus texto são tão sinceros e tão únicos, Gabi
    eu acredito que duas pessoas bem diferentes possam caminhar juntas numa boa, mas desde que tenham objetivos parecidos... é difícil quando um quer casar e outro quer comprar uma bicicleta, mas não é impossível se um ouve pagodjinho e o outro prefere samba de raiz.

    beijos!

    www.petitemanie.blogspot.com

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  3. Já tive dois amores assim e não deu certo ):

    Meu Blog ♥

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  4. Quem nunca teve ou viveu um amor assim?
    Adorei o texto e a parte do:" a gente discutia só pra terminar na cama, juntos, ocupando o espaço que só um corpo deveria ocupar".
    Parabéns pelo blog!
    Bjos e uma ótima semana!
    Sheyla.

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  5. Já i o livro "Um dia" mas apesar de ter sim partes lindas e que quase me fizeram chorar, não consegui gostar do livro e, por isso, nem cheguei a pensar na questão de assistir ao filme. Contudo, é impossível discordar de várias coisas que são relatadas ao decorrer da história. Beijos, Light As The Breeze

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  6. To morrendo de chorar depois de ler esse texto Gabi, de ler aliás, sei lá. Despertou uma saudade aqui, cutucou.

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  7. As vezes as coisas, simplesmente, morrem. Sem nenhuma salvação. Em outras ocasiões, a gente só vê o fim quando estamos nele. É triste das duas formas. {Emilie Escreve}

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  8. Você escreve muuito bem! Adorei o texto! Eu estava até pensando um pouco nisso hoje, me imaginando com um namorado que fosse calmo, relaxado com as coisas, ao contrário de mim. Acho que eu ia gostar, um ponto de paz, sei lá.
    xoxo

    www.s2juuh.blogspot.com

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  9. Adorei o teu texto, tu escreve muito bem. :3 Às vezes me pego pensando em como será meu primeiro namorado, sabe? Namorado na real, não de brincadeira como foram todos os meus relacionamentos infantis em jogos infantis. Eu iria gostar de um ponto de paz, porque eu até sou agitada, mas isso depende um pouco de como está sendo meu dia.
    Beijos || Unlocked Land ❤

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  10. Lindo texto, lindo blog! voltarei mais vezes pra ler mais!
    beijos

    www.coresdodia.com

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  11. Adorei o texto... e me fez pensar... Essa coisa de guerra e conflito constante que vira amor só dá certo em filme mesmo...

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  12. Me identifiquei muito... mas aprendi que precisamos deixar o amor livre.
    Quando a gente dói, a gente precisa saber formas de cuidar da própria dor com o jeito carinhoso com que gostaríamos de ser cuidados pelos outros, com a delicadeza com que cuidamos de outras pessoas. A gente precisa se ter, antes de tudo.

    Seja muito bem vinda no esconderijo

    beijos doces

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  13. A cada novo romance que vivemos, enxergamos uma cena de filme, relanceamos um final feliz. Mas roteiros podem ser previsíveis, pessoas não. Sempre... surpreendentes. De modo que a cada novo romance, na verdade, ganhamos uma nova forma de interpretar o sentimento, o mundo e a nós mesmos. Oh, vida bagunçada, cheia de curvas e esquinas... haha'

    Beijos ♥ Jeito Único

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  14. Oi, Flor! Tudo bom? Estou apaixonada pelo seu blog, parabéns por tanta dedicação, virei sua seguidora, com certeza! <3
    Estou totalmente sem palavras pelo texto, expressa muitos sentimentos e momentos vividos por muitos e até mesmo por mim. Escrever e expor os sentimentos é sempre algo difícil e querendo ou não, é preciso de uma certa coragem. Ter o coração partida muda muitas pessoas e muitas vezes nos faz crescer, sei bem disso. E o mais difícil é sempre seguir em frente, mas é uma vitória maravilhosa e todos devem conseguir esse ouro, porque sofrer por algo assim é uma coisa que eu considero tortura. Eu sempre digo que prefiro a dor física do que emocional, pois apenas um remédio pode nos ajudar, mas o emocional depende totalmente de nós e isso é um universo e uma confusão que só os profissionais sabem direito e olha lá!
    Parabéns pelo texto <3

    Beijinhos,
    Percepções Blog

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  15. Gostei muito do texto. Parabéns! As vezes os opostos se atraem.

    Blog Prefácio

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  16. Por mais doloroso que ás vezes seja, eu gosto de amores bagunçados, cheios de raiva e amor juntos. Me fazem melhor do que aqueles que só me acalmam. Gosto da euforia entre ambas partes.
    Lindo texto, me identifiquei!
    Beijos, beijos!

    http://dearitgirl.blogspot.com.br/

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  17. Gostei do seu texto e do blog.
    Às vezes a grande atração está no que é oposto mesmo, mas nem sempre dura.

    Obrigado pela visita no meu blog.

    Até mais

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  18. Talvez por isso os pequenos momentos mereçam ser sempre celebrados. Aquelas pequenas felicidades imperceptíveis. São esses fragmentos felizes que nos mantém vivos.

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  19. Ai que texto apaixonante! *-* Sabia que eu acho mais bonito um casal assim do que um casal cheio de nhê nhê nhê? Do tipo "ai meu amorzinho pra cá, meu amorzinho pra lá". Prefiro mil vezes casais assim, que brigam e se entendem e aguentam o relacionamento por um fio, porém é doloroso demais em todas as brigas ver que o coração vai se quebrando aos poucos e realmente chega uma hora que a gente não aguenta. Adorei o texto!

    Bitocas!
    www.likeparadise.com.br

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  20. Gente, que talento para a escrita!Entrei aqui no blog e me vi perdida no tempo com seu jeito de brincar com as palavras, tudo recheado de sentimentos. Lindo demais esse texto, e apesar de não ter um "feliz para sempre" como final, acho que o "enquanto durou" é tão importante e bonito quanto...

    Estou seguindo aqui, beijos <3

    http://perigosasgarotas.blogspot.com.br/

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  21. Auuuunw, esse livro...<3 Eu chorei demais com o final dele.O legal é que tanto o livro quanto o filme são ótimos,gostei bastante!
    Seu blog é tão legal e bonito,hohohooh.


    beeijão ^^
    http://borboletametamorfoseando.blogspot.com.br/

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  22. AAi como eu conheço uma história parecida. hahah Amei o jeito como você escreveu, sério.
    Ah, meu conto da Madelaine já tem post novo :)
    Beijão
    barradosno-baile.blogspot.com

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  23. ótima escrita. Conseguiu transparecer para o leitor, toda a realidade que a situação pede. Adorei e muitas vezes queremos que o errado dê certo né? =/
    Blog - Instagram

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  24. Eita, EITA!
    Esse texto... Vixe Chessus, me lembrou alguém! Ah, me lembrou um moço que me faz tão bem, que é como o moço do texto, calmaria, enquanto eu sou uma confusão, um trem sem freio. Quero imensamente viver uma paixão, um amor, qualquer coisa assim bem linda ao lado do moço que desperta amor, paz e doçura em mim.
    Lindo, LINDO e lindo esse seu texto.
    Vou deixar até nos meus favoritos pra eu ler de vez em quando e lembrar (como se o pudesse esquecer por um minuto) dele.
    Um abraço!

    Sacudindo Palavras

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  25. Gostei do texto. Me peguei sentindo todas essas emoções conflituosas durante a leitura, e é tão bom encontrar alguém traduzindo emoção em palavras... Realmente gostei.

    http://florescerepalavrear.wordpress.com

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  26. Sempre queremos que dê certo, mas nem sempre conseguimos o que queremos... E a vida nos ensina de certas maneiras que olha... Fiquemos nas reticências.
    Belo texto, moça.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.