Nova Perspectiva

16 de março de 2013

Dos dois sentimentos do mundo.

Via reprodução
Em uma vila pacata no interior do interior de São Paulo por volta do ano de 1998 eu vivi uma das paixões mais arrebatadoras de todos os tempos. E não me venha dizer que estou errado, pois aqui está o cara que não erra nunca. Eu era da cidade grande e havia ido passar umas semanas de férias na casa dos meus avôs, faziam-se anos que eu não ia até aquele cubículo quase inabitado. Aquela não estava sendo minhas férias dos sonhos. Até que eu a vi. Ela era morena dos olhos esverdeados, vestia-se sempre com vestidos soltinhos e floridos, sorria com os olhos. De longe era a menina mais bonita da cidade, não tinha como competir com ela, até mesmo as moças da capital eram deixadas no chinelo pela beleza envolvente daquela jovem de sotaque caipira. A menina moça não devia passar dos quinze anos, eu já beirava a maioridade, mas não pude deixar de buscá-la nas poucas ruas, nas mercearias, nas praças. Seu nome era Marcelina. Marcelina tinha lábios quentes, mãos finas e riso frouxo. Não há um dia daquelas férias que eu não lembre detalhadamente, mas teve um, em especial, que eu gostaria de dividir com vocês. 
Corríamos para dentro da mata em silêncio, eu iria embora dali alguns dias e estávamos tentando aproveitar cada milésimo dos nossos encontros. Joguei-me no chão e puxei-a para cima de mim.
- Eu te amo. – Sussurrei em seu ouvido enquanto ela caia em meus braços,
- Não ama não, seu bobo. – Ela soltou um riso frouxo daqueles que deixa a gente com vontade de rir também. – Só está apaixonado.
- E qual a diferença Lina? – Enquanto isso jogava meu corpo sob o dela e deslizava meus dedos por sua face aveludada.
- Não adianta eu explicar, você precisa sentir os dois para entender.
Soltou outro riso e então paramos de gastar nosso tempo com palavras perdidas. De fato aquelas foram as melhores férias da minha vida. Depois de mais alguns dias eu voltei para a capital e ela ficou lá, pouco depois meus avós vieram morar em São Paulo por conta das doenças de meu avô. Nunca mais fui para a Vila. Nunca mais vi Marcelina. Anos depois eu conheci o amor, casei, tive filhos, um bom trabalho, uma casa própria e experiência suficiente para compreender aquela diferença que em meados da minha juventude eu não compreendi. Paixão é ventania que destrói sem medo tudo o que está em volta e nos libera uma adrenalina fora do comum. Paixão é um furacão gostoso, um tipo diferente dos que existem pelo mundo, é um furacão emocional que chega, bagunça tudo e vai embora deixando um gostinho de quero mais, podia ter sido mais, mas não foi. Não é. Paixão é isso, vontade que vem, fica um pouco e vai embora. Acaba. O amor é brisa leve que permanece, resiste. Amor é calmaria, é aquele oásis no meio do deserto, é a vontade de estar eternamente com aquela pessoa, é o pra sempre que não acaba nunca. É o sentimento das borboletas na barriga, do sorriso bobo no rosto e dos pensamentos avoados. O amor é tudo o que a paixão não é, e vice versa.
Amor e paixão andam lado a lado, como duas retas paralelas feitas para não se cruzarem, a não ser quando traçadas por mãos descuidadas, dessas que vivem para pregar peças na arte do coração. 


Crônica do amor e da paixão.
Gabriela Freitas.

33 comentários:

  1. "Amor e paixão andam lado a lado, como duas retas paralelas feitas para não se cruzarem, a não ser quando traçadas por mãos descuidadas, dessas que vivem para pregar peças na arte do coração." Adorei a maneira em que conduziu a história para falar sobre amor e paixão. Nos apaixonamos o tempo todo nos convencendo de que aquilo é amor, pois queremos amar, mas depois que entendemos toda essa bagunça. As diferenças dos sentimentos por mais que os dois sejam bons, a brisa leve, a eternidade que é o amor é sempre melhor, e calmo.
    Me identifiquei bastante, beijos

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    1. Andam sim, acho lindo quando o amor vira paixão, e um tanto complicado quando o que ocorre é o inverso. Obrigada Dani, beijos.

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  2. A paixão arrebenta o amor constrói. Apesar de serem dois sentimentos com intensidades diferentes e traçados em linhas quase que eternamente paralelas, talvez em algum momento de descuido uma linha bata na outra e a paixão vira amor ou o amor descobre-se paixão, sempre imagino esta uma mistura arriscadamente deliciosa. Ótimo texto, Gabi.

    PS.: O layout está lindo.

    Beijos ;*
    semprovas.blogspot.com

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    1. Obrigada Mayra.
      "A paixão arrebenta o amor constrói." Adorei essa frase.

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  3. A paixão você esquece, o amor não. Você só desiste quando é paixão. Mas não deixa de persistir quando é amor...

    Belo conto.

    Beijo Gabi!!

    ps: adorei sua visita. volte mais vezes quando tiver folgado das provas.

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    1. "A paixão você esquece, o amor não."
      essa é uma boa frase

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    2. Não desistir, é exatamente sobre o amor.
      Voltarei sim, adorei o blog. Beijos.

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  4. Oi Gabriela, como está?
    Vim lhe perguntar se possui whats no celular( não sei se já havia perguntado isso).
    Bjoos

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  5. engraçado...o amor é confundido com tantas coisas: paixão, ciúme, obsessão...mas, nunca é definido pelo que ele é. e quem poderá saber definí-lo ou reconhecê-lo por inteiro? julgamos estar amando... porém, só o tempo dirá se aquilo foi amor mesmo.
    ~~ Emilie Escreve ~

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    1. Pois é. Acho que descobrir que amamos requer um árduo tempo, anos, muitos deles.

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  6. Caminham lado a lado mas tem uma diferença absurda.


    Beijo

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  7. Tão eu->Ela era morena dos olhos esverdeados, vestia-se sempre com vestidos soltinhos e floridos, sorria com os olhos.

    O blog já ta quase chegando a mil seguidores ce você poder colaborar eu não vou esquecer<3
    ->smileretro.blogspot.com Xoxo

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  8. Mas seu post falou tudo...
    no amor a gente pensa no futuro planeja
    a paixão nos dá tempo pra isso.. *-*

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  9. Adorei sua forma de expressar as diferenças entre esses dois sentimentos que, embora tão próximos, são bastante distintos. ''Paixão é ventania que destrói sem medo tudo o que está em volta e nos libera uma adrenalina fora do comum. Paixão é um furacão gostoso, um tipo diferente dos que existem pelo mundo, é um furacão emocional que chega, bagunça tudo e vai embora'', sem dúvidas, eu usaria a mesma definição. Paixão é tão forte que às vezes parece letal. Amor é suave, sabe usar a razão quando preciso, é o que realmente fica e ''resiste'', como bem disse você.
    Amei demais!

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    1. Obrigada Emi. É tão fácil confundir os dois, né?!

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  10. Adorei o texto e a forma de diferenciar os sentimentos. Sempre que leio textos assim me lembro da primeira vez que achei "mágoa" como referência no dicionário para "paixão". E às vezes queremos TANTO amar que acabamos confundindo e atribuindo ao amor um significado que não o pertence.

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    1. Obrigada.
      Sim. Mas o tempo destrói essa falsa imagem que criamos para fingir ser amor. Paixão não dura pra sempre.

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  11. Gostei desta forma de ver estes dois sentimentos...mesmo pq sempre achei que não se cruzavam...rs

    []s

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  12. Nossa Gabi que maravilha!
    Bela comparação, estou sem palavras!
    Estava em dúvidas e lendo esse texto cheguei a conclusão que de estou sim, apaixonada e da um medo danado de virar amor. hshsush

    Parabéns!

    Beijos

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  13. Descobrir o que nós realmente amamos leva um tempo.
    Preciso tecer elogios ao blog, sinceramente. Adorei, adorei ! Tô seguindo e adoraria que você seguisse de volta.
    Seu blog já está nos meus favoritos *-*

    Beijos, sucesso e não pare de escrever !
    http://semrevolta.blogspot.com.br/

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    1. Leva mesmo, bem mais tempo que imaginamos. Muito obrigada.

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  14. O texto está muito bem escrito, mas preciso dizer que não concordo com essa diferença abissal que todo mundo costuma ver entre amor e paixão. rs
    Fiquei com vontade de conhecer Marcelina.

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  15. Paixão e amor realmente são coisas bem diferentes, mas as vezes uma paixão pode virar amor! Ameeeeeeei seu conto.

    Beijos :)

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  16. Consegui colocar os créditos!

    #abraços e desculpe por minha amiga

    http://goodiesmaster.blogspot.com.br/

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  17. Linda e delicada a sua percepção. Adorei a crônica!

    http://caferesia.blogspot.com

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  18. É difícil mensurar o que vem a ser amor e paixão. Esses conceitos se moldam com o passar das experiências. Mas elas acabam sendo essenciais, uma não vive sem a outra.
    Há sempre espaço para transformar um amor em paixão e uma paixão em amor.


    Até mais,

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.