Nova Perspectiva

12 de março de 2012

Entrelinhas, entre-linhas, entre nós.

Estava atordoada demais, confusa demais, talvez com um pouco de medo também, precisava fugir, se esconder, ficar só, mas onde em uma cidade cheia de gente a solidão podia ser tão grande a ponto de nem a sua respiração lhe fazer companhia? Ela precisava fugir dela mesma e sabia bem o esconderijo ideal, o único lugar que ninguém, ou quase ninguém, no mundo poderia encontrá-la. Pausa para o almoço. Lá estava ela correndo por entre os carros atrás do local onde podia ficar um pouco mais perto do céu, um pouco mais perto dela mesma, embora distância fosse tudo o que quisesse, na verdade ela já nem sabia mais o que queria. Era o arranha-céu mais alto da cidade, tinha quarenta e cinco longos andares, ela subiu degrau por degrau de toda a escada, parando apenas para respirar ou olhar o sinal do celular, ela gostava de subir escadas, gostava de pensar enquanto se movia com tamanho esforço além de que aquilo valia também pelo pastel, pela coxinha, pelo chocolate e também pela Coca-Cola do dia anterior, não havia mais pontos de sinal em seu celular, a brisa batia com brutalidade no pequeno corpo da garota de all star velho, sentou-se na beirada do prédio, olhou para baixo e sentiu o coração acelerar imaginando a queda livre daquela altura, sorriu, olhou para o céu e fechou os olhos. Milhões de pensamentos conturbaram sua cabeça nesse momento, sua respiração fez barulho, ela queria silêncio, abriu os olhos. O amor é mesmo uma droga, ele te deixa frágil, manipulável, ingênuo, mas ela não acreditava no amor desde a triste separação de seus pais, ela não acreditava no coração acelerado, nas mãos trêmulas, nas palavras gaguejavas e nos contos de fada, ela não queria ser princesa, ela não esperava por um príncipe, ela era apaixonada por sua liberdade de alma, ela não queria ser submissa a nada, muito menos ao amor, mas quem disse que o coração liga pra isso? O cupido não errou ao atirar-lhe a flecha, a moça de all star foi pega certeiramente pelo veneno da paixão e agora só lhe restava o rosto borrado de maquiagem, o coração acelerado, as mãos trêmulas, algumas palavras gaguejadas e a doçura dos contos de fada.
- Sabia que te encontraria aqui.
Por alguns minutos ela hesitou em virar para trás, seu coração quase saltou da boca ao notar a voz que lhe falava, era ele ou era seus loucos devaneios o imaginando? Será que o amor é realmente uma doença? Será que aquilo era um delírio? Virou-se, mas sem crer no que via permaneceu em silêncio.
- Um descuido e você cai daí, não devia se sentar desta maneira, a não ser que esteja pensando em fazer feito pássaro, o que só para relembrar-te seria difícil já que não tens assas.
- Eu. – Fechou os olhos, contou até dez sem se preocupar o quanto ridícula iria parecer, levantou-se e continuou. – Eu só queria sentir o vento.
- Não precisava ser assim tão perto do fim.
- Quem disse que lá é o fim?
- Você entendeu o que eu quis dizer, Analu.
- Por que você veio até aqui?
- Já faz quase três horas que você sumiu, todos ficaram preocupados e eu sabia que te encontraria aqui.
- Você também ficou?
- Preocupado? É claro que sim.
- Que bom.
Ele sorriu. – Você é completamente pirada, garota.
- Não sou, fiquei.
- Você devia parar de falar por entrelinhas comigo, você é um jogo misterioso e eu ainda não consigo te decifrar.
- Não estou falando por entrelinhas.
- Seja direta, embora eu ame o seu misterioso jeito de falar eu ando precisando entender tudo.
- Não tenho nada para dizer, aliás, não há nada para você entender e eu não deveria estar me sentindo desse jeito, mas... – Olhou para o chão fitando os próprios pés. – Preciso trocar de tênis.
- Mas precisa trocar de tênis? É isso? Analu eu estou te pedindo, posso ir embora se você quiser. – Suspirou. – Você quer?
- Eu ou meu coração?
- Os dois.
- Dá briga, cada um quer uma coisa.
- Cada um quer uma coisa ou você não aceita querer o mesmo que ele?
Silêncio, a brisa lhes cortava a face, o amor às vezes nos confundi, nunca estamos preparados para um sentimento tão grande invadindo cada órgão de nosso corpo, a fragilidade humana não nos dá defesa para barrar as mil e uma sensações que não estamos prontos para sentir, caímos de joelho implorando para que o outro dia chegue logo e isso vá embora de dentro do peito para que livre espaço e desocupe lugar, imploramos para não amar, mas ali no fundo torcemos para não ficarmos livres desse aperto bom que vem dentro da gente quando amamos afinal uma vida sem amor é uma vida triste e perdida.
- Mas...? – Ele interrompeu os devaneios da garota.
- Mas você apareceu e me tirou do chão desde o começo. – Jogou-se no chão porque naquele momento seu corpo estava pesado demais para manter-se erguido. – Eu nunca gostei de ninguém assim, eu nunca achei que fosse capaz de amar alguém com cada parte do meu corpo, agora esse maldito sentimento está em cada fio de cabelo que tenho, as noites são todas mal dormidas e os dias parecem ter sempre ar de domingo à tarde, é gostoso por ainda não ser segunda, mas é ruim por não ser mais sábado. Eu preciso de você como se você fosse a minha própria vida, é como se cada passo meu dependesse do seu, eu te daria o meu coração agora se ele já não fosse inteiramente seu, mas tudo o que eu tenho pertence a você e eu sinto medo de tudo isso não ser o bastante para você ficar ao meu lado, porque eu não posso te perder já que nada no mundo será tão ruim como ter de viver sem você, só de pensar nessa possibilidade cada parte do meu corpo dói, é como se você fosse uma droga, a única droga capaz de me fazer viver. Tenho sido apenas mais uma sobrevivente nesse mundo dos que amam, eu estou cansada disso, talvez saltar de um precipício me trouxesse novamente o ar de ser livre, de ser novamente dona de mim e das minhas vontades.
- Se você saltasse eu morreria.
- Não vejo motivos para isso
- Você é a minha droga, Analu, a minha heroína e se eu não tiver diariamente uma dose de você então eu entrarei em abstinência e nada poderá me salvar. Eu sou apaixonado pelo seu olhar você tem olhos de gato, é como se você soubesse todos os segredos do mundo, mas os guardasse somente para você. Seu jeito de por o cabelo para trás da orelha me faz sonhar e a maneira como você me olha de canto e sorri até formar covinhas em suas bochechas fazem meu coração ir parar lá em cima onde não há nada além de paz e é assim que eu me sinto quando estamos perto um do outro, em paz.
- Eu não vou embora jamais, mas você também não pode ir.
- Eu não conseguiria ficar sem você.
- É assustadora a maneira como eu te amo, é assustadora a forma como eu só me sinto protegida quando estamos juntos.
Como se nenhuma palavra fosse suficiente para expressar tamanho sentimento ele a tomou pelos braços e suavemente tocou seu lábio ao dela, o corpo de ambos transmitia uma eletricidade ainda não estudada por nenhum dos melhores físicos que por nós são conhecidos, desafiando todas as leis e fórmulas e provando que ali o resultado de um mais um era igual a um. O vento ficou mais fraco, o amor ficou mais forte e o cupido lá de cima sorria: trabalho feito, trabalho feito.

14 comentários:

  1. Adorei a narrativa Gabi. Mas por um momento pensei que a Analu fosse se jogar de lá, não seria legal. O pior é que eu pensei que ou ele não faria nada para impedir, ou ele falaria coisas diferente do que falou, tipo, que não amava mais ela e que ela precisaria entender sem dramas ou desespero.
    Ainda bem que não foi nada do que eu pensei... rs A história assim, como você relatou, foi bem mais linda.

    Bjs querida, ótima semana. ;*

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  2. rsrs' Lindo texto! Gostei desse cupido dela.. o meu vive errando! kkkk'


    O amor é mesmo assim.. aparece quando menos esperamos e não olha se acreditamos ou não nele, ele simplesmente existe e aparece em nós. É perfeito demais para ser explicado.


    Adorei o seu texto! Você tem muito talento!

    Bjoo =*

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  3. Que trabalho bem feito esse do cupido *-*

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  4. Esse é o melhor e mais puro tipo de amor que existe: aquele que te faz mudar, viver, acreditar que sentimentos podem ser realmente sentidos.

    Belíssimo conto.

    Beijos

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  5. Adorei o conto, está muito bom mesmo.
    Beijos

    http://alwayspoisonlove.blogspot.com

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  6. Gostei bastante do desenrolar da história e o desfecho.

    Beijos.

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  7. Que saudade de ler uma história do tipo em que se "entra" nas linhas! Teu jeito em descrever os detalhes, os sentimentos, é realmente incrível. Pude até sentir o vento nos cabelos quando ela se sentou na beirada do prédio e o coração palpitar quando ele falou. Beijos!

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  8. Ouu querida sem problemas, também não estou entrando todos os dias, quando entro é porque sobrou um tempinho, mas ando estudando bastante!
    Deus abençoe
    Eu amo esse blog!
    asoonhadora.blogspot.com/

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  9. Ow, minha Flor!
    Também tô numa correria, final de semestre, tempo corrido apertado. Sei que nem tô tendo tempo pra visitar direito, mas assim que chegar minhas férias desejadas venho dar um passeio por aqui.
    Obrigada pelas visitas lá no Blog, viu!?
    Teu cantinho também é sempre um amor!
    Beijos.

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  10. Correria aqui tbém, rsrs


    Bjkasssssssss

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  11. Ficou tão singelo! A narração dos sentimentos dela, a declaração na cara-de-pau que ela fez... São coisas que a gente sonha em conseguir fazer, mas já começamos a suar só de pensar nisso. Ficou uma utopia muito linda, pena que na realidade ainda está no plano da utopia.

    Foi mal o sumiço, comecei outra faculdade, só agora estou com tempo. Um beijo! http://biacentrismo.blogspot.com

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  12. Eu não ando me sentindo como uma Analu da vida,mas queria tanto sentir isso, e ter alguém para vir atrás de mim quando eu desaparecesse e tivesse com medo dos meus próprios sentimentos.
    Enfim, dizem que o amor vêm quando a gente menos espera, ou quando a gente menos quer, vou esperá-lo. E na história, Analu gosta de sua liberdade, mas não existe liberdade boa sem amor, eu sei bem disso. rs

    Enfim, lindo texto, suas palavras me fazendo suspirar e iria reler ele se eu não tivesse com uma dor de cabeça tremenda agora :/ rs
    E ah, entendo sua falta de tempo, seus outros leitores também entenderão, estudos vem em primeiro lugar né? *-*

    Beijos
    http://mon-autre.blogspot.com.br/

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.