Nova Perspectiva

17 de fevereiro de 2012

O café.

Ele não ia aparecer, ela sabia disso, mesmo assim estava parada no mesmo café que ambos iam durante as tardes de inverno, fazia frio, mas lá estava sempre quente, não se sabia se era o café ou o moderno climatizador de ar que os esquentava, mas lá ficavam protegidos dos ventos que batiam do outro lado da janela, tomou um gole de café e voltou a encarar a rua, as memórias presentes naquele pequeno cybercafé podiam levá-la a loucura, mas a loucura ainda é melhor do que o vazio, o nada.
Faziam-se seis longos meses que ele havia partido e mesmo assim ela o esperava como uma criança aguarda pelo bom velhinho Noel, o café, que cheirava a casa antiga, havia virado seu segundo lar, de segunda à segunda ela estava lá no mesmo horário, não atrasava-se nunca, não faltava em hipótese alguma, ela precisava esperá-lo, afinal, sem ele sua vida não tinha vida.
Um barulho estranho surgiu ao lado de fora instigando a curiosidade da menina, Ludmila procurou pelo causador de tamanho estrondo, mas não havia nada.
O que tinha acontecido? Ele fora convocado para a guerra em seu país natal, era impossível recusar, devia proteger sua nação, devia honrar o nome de seu pai que no passado tinha sido um general. Ela detestava as guerras, pois essa era a maneira mais dolorosa e fria de perder alguém que se ama e ela o amava como amava a sua própria vida, se não mais do que isso. A guerra, entretanto, já havia acabado há mais de dois meses e dele ninguém sabia nada, nem um telefonema se quer ela havia recebido, era desesperador, Ludmila vivia em constante angustia, passava noites pensando se ele ainda estava vivo, se a vida dela ainda valia a pena sem ter a dele ao seu lado.
O barulho estranho soou novamente na rua, a curiosidade acabou sendo maior do que a necessidade de ficar sentada até dar sete horas. Havia um circulo de pessoas cercando uma grande massa de fumaça, algo pegava fogo, o coração dela apertou, ele estava ali, isso era certeza, enfiou-se no meio da multidão quebrando a barreira que a policia formava, não era possível enxergar muito depois da linha fina que os agentes militares formavam, dois carros estavam batidos, um carro estava estraçalhado e outro pegava fogo, Ludmila foi guiada pelo próprio extinto, agora parecia um lobo farejando, ela farejava pelo cheiro de tabaco que seu grande e único amor mantinha como cola em sua pele, não se enxergava mais nada, afastou-se do carro que pegava fogo e chegou próximo do outro, alguém gritava. A voz invadiu a cabeça de Ludmila, aquilo parecia impossível, ele a chamava pedindo socorro, era ele! Ludmila então correu ao local de onde saia o som, com rapidez abriu a porta e enfiou-se no carro. Tudo ficou claro, ele estava com alguns ferimentos no rosto e chorava, ela estava com a pele manchada de preto da fumaça e também chorava, ele a tocou a face e a acariciou levemente com os dedos, “Senti sua falta.” ele sussurrou, ela sorriu e colocou sua mãe sob a mão dele “Eu sabia que voltaria.” respondeu-lhe, ele sorriu de volta e com olhos fechados falou antes de calar-se para sempre “Eu prometi que iria até o inferno por você.”.
O despertador tocou, os ponteiros marcavam cinco e meia da tarde, Ludmila precisava se arrumar para aguardar seu amado no pequeno cybercafé.

14 comentários:

  1. Que belo texto, Gabi! Rico em detalhes, muito bom mesmo.
    Apesar de ser um conto, há uma dose de verdade aí, principalmente no que diz respeito a esperar aquela pessoa naquele local...
    Enfim, belo texto, parabéns!

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  2. Às vezes um sonho é a única coisa que nos mantém vivos, principalmente, quando a realidade nos nega a chance de ser feliz.

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  3. Hola, concisas y precisas letras van desnudando plácidamente la germinal belleza integral de este blog, si te va la palabra elegida, la poesía,te espero en el mio, será un placer,es,
    http://ligerodeequipaje1875.blogspot.com/
    gracias, buen día, besos anómalos..

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  4. Gabi,
    Eu vejo como você tem melhorado.
    E juro, acreditei que mesmo que ele tinha voltado.

    Uma pena que só foi um sonho. Será que pode se tornar realidade?

    Beijo.

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  5. Texto muito bonito, com coisas raras de se encontrar hoje em dia.
    Sabe, sempre quis ir a um cybercafe :<

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  6. Gabi,


    Não sei quantos cafés amargos já marcaram minhas esperas...


    Não sei, não sei...



    Bjkas

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  7. Esse texto me fez imaginar toda a cena e faz vc quase saber o que esta acontecendo e depois mudar tudo, isso me faz gostar cada vez mais de escrever

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  8. Passa no meu blog tem coisa pra você lá. http://mundodenati.blogspot.com/2012/02/tag.html

    Bj

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  9. Muito lindo esse texto, mas não poderia esperar nada diferente vindo de você ♥

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  10. mil vezes ansiedade. a amor faz isso, sempre.

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  11. É muito melhor quando, às vezes, as coisas não seguem o roteiro e somos brindados com um pouco de surpresa.
    Surpresa poderosa, daquelas que salvam relacionamentos e conquistam novos territórios num mesmo sentimento.

    Achei essa leitura leve, e se encaixou perfeitamente para esse manhã que se inicia.

    Saudades daqui.

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  12. Um conto muito agradável de ler. Cafés sempre são um bom cenário para (re)encontros românticos. Gostei! :)

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  13. Quem ama é sempre assim, não?!
    Mas no fim, quem deixa ir tem pra sempre. Beijo querida.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.