Nova Perspectiva

24 de dezembro de 2011

Um conto de natal.

O despertador tocou, a moça de cabelos pretos abriu apenas um de seus olhos, o relógio que marcava 20:00, o maldito alarme continuou a soar, com a mão esquerda buscou pelo interruptor que ficava logo a cima de sua cabeça. O quarto estava bagunçado, cercado por pilhas de roupas amassadas, cervejas escondidas e cinzeiros abarrotados de bituca, jogou o despertador longe e levantou, o céu estava escuro o que naquela época do ano não era comum. Olhou-se por um breve tempo no espelho e sorriu, era como se houvesse um pacto com diabo, ainda jovem, ainda bela, ainda irresistível. Bagunçou os cabelos e despiu-se ali mesmo, pegou uma toalha de dentro do armário e foi até o banheiro, tomou seu banho e voltou para se arrumar. Procurou pelo vestido vermelho, o mais novo de todos os que havia ali, mas naquela bagunça era difícil de algo ser encontrado, depois de uma longa procura por todos os quatro cantos do pequeno cômodo o vestido foi encontrado, justo, curto, vulgar. Era ela escrita em uma peça de roupa. Calçou os sapatos pretos que tinham, no mínimo, dez centímetros, acendeu um cigarro. Com calma foi até a janela e encarou a lua, era a noite perfeita. Voltou para terminar a pintura perfeita do sonho deles. Pegou o estojo e começou pelos olhos, em menos de duas estava completamente pronto. Maquiagem, cabelo, roupa, era apenas isso que a representava, fumou mais um cigarro antes de sair, pegou a pequena bolsa preta e trancou o apartamento, apertamento, como ela gostava de chamar. As luzes refletidas pelas janelas iluminavam os becos escuros por onde ela passava, em alguns restaurantes tocava a musica de natal, em pensamentos ela cantava “Jingle bells, jingle bells, Jingle all the way” e sorria do jeito mais malicioso possível. Passou pela sua antiga casa, quando ainda tinha laços com a sua família, parou e ouviu os sons que vinham lá de dentro, “imundos” sorriu, o que havia acontecido entre eles era um grande mistério, mas reza as fofoqueiras do bairro que era culpa do padrasto que a molestava, talvez isso explicasse o jeito da garota de cabelos negros agir, voltou a descer a ladeira, chegou ao fim e virou na primeira esquerda. Um bar antigo estava aberto, era um dos únicos que não fechavam na noite de natal. Entrou e pediu um copo de whisky, olhou o movimento e buscou pela sua primeira presa, mas naquela noite ela não era o único leão.
- Mais uma dose? – Ofereceu-lhe um moreno alto de olhos claros.
- Claro! – Sorriu flertando com o olhar.
- Mais duas, por favor. – Pediu o rapaz ao garçom. – Nunca te vi aqui antes.
- Não venho sempre.
- Mora longe?
- Não. Mas tem bares melhores pela região.
- Qualquer bar pode ser o melhor quando estamos em boa companhia.
- Mas não são todas as noites que se pode ter uma boa companhia.
- E essa?
- O que tem?
- Pode ser uma noite com uma boa companhia?
- Qual seria a graça se eu te respondesse?
- Nenhuma. – Encarou-a por longo tempo, percorreu com seus olhos claros todas as curvas da mulher, olhou-a novamente. – Ainda não sei o seu nome.
- Nem eu o seu, nem faço questão de saber. É melhor assim.
A conversa desenrolou até ela notar o relógio marcando duas horas, mas não pararam por ali, foram juntos até a casa dele.
- Feliz natal! – Ele disse abrindo a porta.
- Posso ver o meu presente? – Disse a jovem com o sorriso maldoso.
- Pode ficar com ele a noite toda.
Ele agarrou-a pela cintura e ali mesmo na entrada da casa começaram a se amar, havia roupas pela casa inteira quando acabaram, ela o encarou por breve tempo após constatar que ele havia consigo fazer com ela o que nenhum outro além dela mesma havia conseguido, sorriu. Por alguns instantes sentiu vontade de abraçá-lo carinhosamente e agradecê-lo, mas não fez nenhum um e nem o outro, apenas continuou lá deitada com as costas despidas enquanto ele a admirava com mil pensamentos na cabeça.
- Vou poder saber o seu nome? – Perguntou-lhe ele.
- Não.
- Vamos nos ver de novo?
- Não.
- Mas você não gostou?
- Gostei, foi simplesmente maravilhoso, mas é melhor assim.
- Por quê?
- Ninguém se machuca.
- Mas eu jamais te machucaria.
- Eu te machucaria.
- Por que você me machucaria?
- Ou eu teria que machucá-lo ou teria de me machucar.
- Por que não podemos simplesmente não nos machucar?
- Porque eu não conseguiria.
- Por quê?
- Você já conseguiu falar mais de cinquenta por quês em menos de cinco minutos.
- É que eu não entendo, achei que tinha sido bom.
- Foi ótimo, inesquecível e é por isso que não quero estragar.
- O que estragaria isso?
- O amor, ele sempre estraga tudo.
- Então?
- Eu vou embora, você vai sempre se lembrar de mim de um jeito bom e eu também sempre me lembrarei de você de um jeito bom. Sem sentimento, sem dor, sem feridas, sem lágrimas.
Ficaram em silêncio enquanto ela o encarava, ele sentiu-se atraído por aquele olhar de maneira como jamais havia se atraído antes. Ela tinha olhos de gato, um olhar daqueles que parece que se esconde o segredo do mundo.
- Tenho que ir. – Falou após constatar que era realmente o melhor a se fazer.
- Já?
Ela sorriu e levantou indo trocar-se, amarrou os cabelos em um coque leve e despediu-se de longe apenas com um tchau feito pelas mãos, caminhou até a porta e saiu.
Durante a volta passou no mesmo Bar e pediu uma pequena dose de tequila para acordar, acendeu um cigarro. Descalça com os dois pares de quinze centímetros na mão voltou para casa, encarou mais uma vez a sua antiga moradia quando uma mulher abriu a porta. Ela já estava velha, os cabelos brancos lhe entregavam seus sessenta anos, fazia tempo que ambas não se esbarravam.
- Moça. – Gritou à senhora.
Com os músculos paralisados com a cena ela encarou a velha antes de responder.
- Sim?
- Você parece tanto com a minha filha, é você filha? – Os olhos da mulher transbordavam lágrimas e emoção.
- Não, desculpa. – Virou-se para esconder as suas próprias lágrimas.
- Moça. – Gritou mais uma vez a senhora.
- Diga. – Respondeu sem olhar para trás.
- Ele morreu e antes de fechar os olhos me contou toda a verdade, me arrependi por todos os anos quando soube que ele era o culpado, que você não havia mentido, que ele era um monstro e que fazia aquilo com você, com a minha pequena. – A voz da senhora era de choro, ela certamente chorava. – Passe o natal conosco, sua família, fique aqui para o almoço, como fazíamos antes.
Ela queria, mas não podia perdoar, para perdoar é necessário coração e ela havia o perdido aos onze anos, quando todo o pesadelo começou.
- Desculpe senhora, mas não posso ser sua filha, minha mãe morreu há quinze anos.
A senhora gritou mais algumas vezes e tentou correr para alcançá-la, tropeçou e caiu. Ela não sentiu pena, ela não sentia nada.
Abriu a porta de casa e pisou com os pés descalços no piso frio, sorriu, era disso que ela gostava, do frio. Jogou-se no sofá e deixou o som rolar, tocava jazz, fechou os olhos e desejou para si mesma um feliz natal.

12 comentários:

  1. Olá,

    Criei um blog hoje, dia 24/12, e passeando pela blogosfera deparei-me com teu blog. Adorei teus textos por isso sigo-te se puder visite-me serás bem recebida

    beijos
    Erica

    ResponderExcluir
  2. Noossa Gabi, um texto forte de ser lido. Porém bem interessante. Acho que você exemplificou muito bem a postura de muitas mulheres frias hoje em dia... não pelo mesmo acontecimento de ser molestada e talz.. mas pela descrença do amor.

    Feliz Natal queriida. Beijoos ;*

    ResponderExcluir
  3. Surpreendente você ter somente dezesseis anos.

    ResponderExcluir
  4. Linda, espero q tnha tido um otimo natal.. agora q venha 2012 cheeeeia de alegria p gnte né??

    ResponderExcluir
  5. Que noite de Natal, hein? Mas foi assim que ela escolheu para passar e se está bem...
    Ficou longo, mas eu adorei mesmo assim. :D
    ;****

    ResponderExcluir
  6. Minha querida, Feliz Ano Novo pra você <3

    Que Deus te abençõe sempre!

    ResponderExcluir
  7. lindo texto :D
    feliz 2012 flor.
    beijos

    ResponderExcluir
  8. Boa noite.
    Desculpa o incomodo, mas venho hoje pedir que olhe com carinho meu blog de resenhas literárias, o O Leitor.
    Se puder fazer parte, agradecemos.

    Obrigada e uma ótima quinta-feira. Beijos,

    Pamela.

    ResponderExcluir
  9. Que lindeza! Nesta quadra natalícia desejo a você muita paz, amor e luz. Que Deus continue iluminando seus caminhos e te guiando na direção certa!
    ;]

    ResponderExcluir
  10. Passou tão rápido o natal, mas até por um bom tempo fica o espírito natalino, e nada melhor que encantar assim, com suas palavras! Um beijo!

    ResponderExcluir
  11. Meia boca nada, ficou ótimo o texto. Eu gostei bastante.

    Um maravilhoso ano novo para ti.

    Beijos, flor.

    ResponderExcluir

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.