Nova Perspectiva

16 de novembro de 2011

Primeiro amor a gente não esquece.

Tomei fôlego e levantei, faziam dias que eu não saia da cama, acendi a luz que por certo tempo feriu meus olhos, o quarto estava uma bagunça assim como estava o meu coração, abri a sacada e acendi um cigarro, respirei fundo algumas vezes e olhei para dentro, não para dentro do quarto, mas para dentro de mim, doía uma dor aguda que penetrava até a alma, eu precisava ajeitar isso. Estava um pouco frio então terminei o cigarro e entrei, coloquei um moletom velho que você havia esquecido por lá, o cheiro do perfume que eu tinha lhe dado no natal passado ainda estava penetrado no tecido azul, fechei os olhos. Agora você estava com outra bem mais bonita que eu, uma com o manequim 38 e olhos verdes, que não entende nada de filosofia e odeia futebol, que fica bem de salto quinze e detesta camiseta larga, eu sabia que essa era a hora de ir embora, mas algo ainda me prendia a você, “deve ser esse moletom velho” pensei, talvez eu devesse te devolvê-lo, calcei meu velho all star rasgado e coloquei um casaco meu, peguei as chaves e sai, caía uma garoa fina, mas a sua casa era perto da minha, caminhei me esquivando dos pingos que caiam do céu, embora doesse muito ainda havia esperanças de você me pedir para entrar e tomar uma taça de vinho, conversar um pouco e perguntar se eu queria ir até o andar de cima ver o céu pela sacada do seu quarto, como fazíamos antigamente, então você diria que sua cama estava arrumada demais e que a gente deveria ir até lá para bagunça-la, eu toparia depois de dizer o quanto você era bobo e ficaríamos por lá até nascer o dia. Sem perceber eu já chorava, sua casa estava em minha frente, sequei os olhos e amarrei o cabelo em um coque malfeito que você adorava, toquei a campainha. Demorou uns minutos, mas você chegou, estava com a barba malfeita e uma calça jeans surrada, despido de blusa mostrava sua cor morena que tanto me enfeitiçava.
- Ju... – Falou por dentro de um suspiro de decepção.
- Vim te devolver sua blusa.
- Não precisava.
- Era a sua preferida, claro que precisava!
- Não é mais, mas obrigada mesmo assim.
E ela veio por trás comprovando tudo que eu já sabia, agora tinha outra bagunçando a sua cama, uma loira alta, com cara de menina mimada, ela te abraçou por trás e eu tive vontade de chorar, te entreguei a blusa e pedi desculpas, você não respondeu nada enquanto eu me virava para ir embora, mas esperou que eu dobrasse a esquina para fechar a porta, ainda assim não me atrevi a olhar para trás, naquele instante eu já chorava até secar por dentro, virei a calçada, atravessei a rua e sentei em um banco meio sujo, desabei a chorar ainda mais, eu não devia ter ido, sabia disso. Uma mão me tocou por trás, pulei, era tarde, estava escuro, só podia ser um assalto.
- Julia?
Encarei o homem por certo tempo, não era maravilhoso, mas também não era feio, tinha um sorriso de deixar as pernas bandas e um olhar distante igual o desses poetas de vida boemia, eu sabia que o conhecia de algum lugar, mas não recordava de onde.
- Sou eu, Thiago, você lembra?
- O meu primeiro namorado!
Thiago havia sido o meu primeiro namorado e meu primeiro pé na bunda também, eu devia ter uns quinze anos quando começamos a sair e ele era já mais velho, tinha dezoito na época e mais um monte de menina na cola dele, não que ele fosse o melhor jogador da escola, nem um Deus grego, nem mesmo o mais inteligente, mas tinha um carisma que fazia com que todas as meninas ficassem de joelho, inclusive eu. Foi meu primeiro grande amor, fiquei atrás dele por muito tempo, mas eu não fazia o tipo que ele costumava sair, acabamos namorando por um ano e meio até que ele, feito todos os outros, me trocou por um modelo mais moderno.
- Exatamente! – Ele riu. – O que faz sozinha essa hora?
- Estou. – Encarei a rua que eu havia deixado para trás. – Seguindo com a minha vida.
Ele me olhou com cara de quem não está entendendo nada e me convidou para ir até a sua casa que ficava do outro lado da rua, já que a chuva estava apertando, e eu aceitei. Ele fez café e colocou um pedaço de bola de fubá em cima da mesa, a casa era pequena e parecia que ele morava sozinho.
- Se incomoda? – Falou me mostrando a caixa vermelha de cigarro.
- De jeito nenhum. – Falei colocando o meu sobre a mesa.
- Olha só, a menina mais correta do colégio agora fuma?
- Anos de depressão após o meu primeiro fora!
- Então sou o culpado?
Rimos. – Digamos que sim.
- Vou bancar o cavalheiro e te oferecer uma camiseta minha, ou você vai pegar uma gripe terrível. – Falou saindo da sala e indo até algum outro lugar da casa. - Que engraçado te encontrar assim, no meio da rua e toda ensopada.
Ele virou de costas para que eu pudesse trocar de roupa, vi que espiava de canto de olho feito moleque travesso.
- Perdeu algo aqui? – Perguntei rindo.
- Perdi, posso ir buscar?
Não resisti e ri ainda mais.
- Continua o mesmo bobo de sempre.
- Você também continua a mesma de sempre.
- Com uns quilinhos a mais.
- Bem distribuídos, não é? – Então ele me olhou com aquela cara que ele olhava há seis anos e eu sorri como não sorria há semanas.
- Juro que, para mim, você já estava até casado!
- Com quem?
- Ah, Thi, com uma daquelas capas de revista que você saia antes.
- Fala sério, depois que conheci você aquilo lá perdeu a graça.
- Para de ser mentiroso!
- Sempre sou sincero, você sabe disso.
- E a Luci, hein?
- Lu quem? – Respondeu com um sorriso de canto.
- Aquela que você começou há namorar uma semana depois de dizer que precisava ficar um tempo sozinho!
- Eu disse isso? Mas que burro!
- Não mude de assunto.
- Sabe Ju, lembra quando eu te disse que acharia várias iguais a você?
- Claro, chorei meses por causa disso.
- Então, é que eu não sabia que seria tão difícil de encontrá-las.
Foi então que eu descobri que é assim, entre uma esquina e outra você vai encontrar um alguém que te faça sorrir sem pedir nada em troca, um alguém que faça valer a pena tudo o que você achava que não importava mais.

21 comentários:

  1. Olá. Eu adorei este blog estou seguindo-o. Ficaria muito honrada se seguisse o meu também, caso goste;
    Beeijos :)

    ResponderExcluir
  2. Ola :)
    Esse é um texto que me faz pensar em como deixamos ir embora quem nos faz bem e nunca vamos achar alguém assim :(

    Beijos e tudo de bom

    ResponderExcluir
  3. Ainn...que lindo! *.*

    A gente nunca esquece o que marca de verdade.

    =)

    ResponderExcluir
  4. Ai, lendo isso me deu uma senhora vontade de encontrar esse alguém. Que coisa, guria!
    Saí dos meus próprios conceitos ao te ler, é, mudei de perspectiva.

    Ahn, andei meio sumida, espero que não se importe. x_x
    Mas estou de volta, e tornarei a acompanhá-la por aqui!
    Beijos, G.
    www.2pitadasdesal.blogspot.com

    ResponderExcluir
  5. A verdade é que o que é nosso sempre vem para nós... Na hora certa, no tempo certo!
    Lindo, lindo esse conto *-*

    beijão, flor
    eu já estava com saudades de vir por aqui =)

    ResponderExcluir
  6. É sim. Tenho certeza que quando a gente menos espera. Numa esquina ou outra, alguém muito especial nos faz novamente sorrir.

    Beijos minha linda :*

    ResponderExcluir
  7. Adorei o post, realmente, tem certas coisas que nos marcam que nunca esquecemos.
    Bjus ;*

    ResponderExcluir
  8. tu tem esse dom de me fazer lembrar de certas coisas, pessoas...

    Muito bom (:

    ResponderExcluir
  9. Gabi, mudei minha perspectiva! Haha! Lendo isso, lembrei do que aconteceu há pouco tempo: ainda pensando um pouco no meu ex, retomei contato com meu primeiro namorado, que eu tive aos quinze anos! Eu é que terminei com ele, mas o fato é que percebi que gostava muito dele e que passou. Ou seja, o caos do último namorado também iria passar. Tudo passa, e a gente tem mais certeza disso quando a gente reencontra gente pra nos lembrar que nós somos especiais. Né não?

    Pensei que a história era uma coisa no começo, e depois virou totalmente outra! Adorei.
    chuuuuuuuuack

    ResponderExcluir
  10. é aquela estória, Deus escreve certo por linhas tortas..

    Adorei o conto ^^

    ResponderExcluir
  11. Meu primeiro amor dura até hoje, é sempre maravilhoso falar sobre ele! :D

    ResponderExcluir
  12. O primeiro amor a gente nunca esquece.

    Gaby,quero só te agradecer pela força que me deu lá no blog.Obrigado por está sempre lá.

    Beijão.

    ResponderExcluir
  13. Ouwn Gaby, e eu chorei agora lendo esse texto porque lembrei exatamente de mim. Eu o vi com a outra garota que ele arrumou depois de mim e que fez questão mesmo que eu soubesse e visse.Doeu muito, na verdade ainda doi. Mas com o tempo que faz estou abrindo meus olhos para ver quem realmente gosta de mim e que também me faz sorrir. É tão bom né? :)

    Beijos flôor.

    ResponderExcluir
  14. Adorei seu texto,retrata bem essas coincidências da vida, e de como um dia nublado pode aparecer o sol :)

    http://saiadeflorbm.blogspot.com

    ResponderExcluir
  15. O primeiro amor sempre marca, sempre tem seu charme, apesar dos pesares.
    Texto leve, apesar de carregado de sentimentos.
    Beijo

    ResponderExcluir
  16. Lindo lindo. E tão leve.

    Sabe, acho mesmo que o primeiro amor é algo mágico, e que ele mostra a capacidade do mundo em colocar no nosso caminho pessoas tão iluminadas. Mas também acho que todo novo amor, toda nova oportunidade, toda nova história é assim: renova.

    ResponderExcluir
  17. E de repente pessoas aparecem nas horas difíceis para nos arrancar uns sorrisos. :)
    :*

    ResponderExcluir
  18. Eu adoro esses vãos cheios de surpresas!

    Belo texto, flor!

    Beijos.

    ResponderExcluir
  19. Nada como um "outro" amor para esquecer de algo!

    adorei :3

    ResponderExcluir

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.