Nova Perspectiva

6 de novembro de 2011

O homem pacificador.

“Não posso me distrair”, pensei. Já podia ouvir de longe os sons dos tiros que ecoavam no céu azul do Oriente Médio, eu sabia que havia alguém ao meu lado, mas eu não podia me desconcentrar, isso daria a chance do inimigo vencer e eu não tinha sido treinado para perder.
- Moço. Ô moço... – Disse uma voz fina, ainda sem virar imaginei a figura que estaria ao meu lado, era uma menina, com certeza, e não devia ser muito grande, sua voz era aguda e irritante.
- Vá embora.
- Vá você, este país é meu! – Havia mais de uma pessoa, quem falava agora era um menino.
- Vocês estão me distraindo, saiam daqui. – Falei com o tom forte o bastante para assustá-los, mas não houve movimento.
- Vocês estão piorando tudo, não percebem? – A voz agora era feminina e sutil, essa devia ser a mais velha. – Este país estava bom até vocês chegarem.
- Não estava, viemos pacificá-lo. - Virei para encará-los, eram quatro no total, dois meninos e duas meninas. – Este país precisa de nós!
- E quem foi que lhes disse isso? – Respondeu-me a mais velha. – Vocês estão destruindo o pouco que temos aqui, a maioria de nós, crianças, já viraram órfãos por culpa da artilharia de vocês, meu pai morreu com um tiro na cabeça dentro de casa e nem soldado ele era, eu vi tudo, vocês mataram o meu pai e estão matando a minha mãe, vocês não estão pacificando nada!
- Acontece que o país de vocês é desumano, as mulheres são tratadas como seres inferiores e os homens as maltratam, além do tráfico que ocorre aqui dentro e da destruição que vocês são capazes de causar ao mundo!
- Mulher não é inferior, é a nossa cultura, respeite-a da maneira como respeitamos a de vocês! Destruição que nós somos capazes de fazer? Olha bem, aqui só vejo a destruição que vocês são capazes de fazer.
- Sabe tio. – Falou o mais novo. – Aqui não era um país ruim, cheio de gente ruim, o meu pai era um homem bom e ele amava a minha mãe, mas vocês, soldados da paz, a mataram e ele ficou cheio de ódio dentro do coração, ele se inscreveu e virou soldado, mas não durou muito porque a arma que vocês usam para pacificar o matou. – Ele fechou os olhos e sorriu. – Eu posso sentir o cheiro da comida da minha mãe quando aperto bem os olhos, a Halva dela era a melhor de todas, suas mãos eram de anjo e ela nos amava. O nosso país não era seguro, mas tinha alegria por dentro dessas ruas que estão virando pó, esse paredão onde você está encostado tentando matar o pai de mais alguém era o lugar em que eu me escondia quando brincava com os meus amigos. – Não pude deixar de sorrir, também, imaginando a cena que ele descrevia. – Vocês acabaram com tudo e sabem bem que não é para pacificar nada, o que vocês querem mesmo são os nossos poços de petróleo, para ficarem ainda mais ricos usando os outros de escada! A minha mãe sempre disse que brigar não resolve nada, primeiro a gente conversa, porque vocês nunca tentam conversar?
Tirei o sorriso do rosto, os tiros ainda ecoavam pelo céu, eu sabia que desistir agora seria loucura, concordando ou não com aquelas crianças, eu precisava lutar para sobreviver, virei para o lado e comecei a mirar, fechei os olhos e atirei na direção do homem que corria para atirar em mim, alguém havia sido morto, eu ainda estava em pé, meu trabalho sempre foi bem feito. Olhei para o lado, as crianças ainda estavam ali, elas sorriam, mas seus olhos estavam tristes, assim como o céu azul estava cinza.
- O problema de vocês adultos é que não aprendem nunca. – Era a mais nova falando. – Mas eu sei que um dia o nosso país vai voltar a ser só nosso, eu não odeio vocês, mesmo vocês tendo tirado os meus pais de mim, eu não os odeio nem um centímetro, eu sinto pena, muita pena, por saber que vocês que consideram a minha cultura inferior, são tão pequenos que conseguem matar por dinheiro e fingir que está tudo sendo pacificado. A cultura de vocês, homens capitalistas, é que é muito inferior a nossa.

*Edição visual do projeto bloínquês
**Ando enferrujada com os contos, mas aos poucos vou melhorando.

23 comentários:

  1. Como canta Renato 'o mundo anda tão complicado'...

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  2. A frase é de Fernando Pessoa. Eu concordo, por isso publiquei :)) tens um cabelo lindo, lindo *

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  3. Está enferrujada nada, o texto ficou bom. E pior de tudo é saber que é tudo verdade. Que nós, ocidentais, nos escondemos atrás da ONU, e de uma suposta pacificação para cometar as maiores atrocidades. É triste, mas é real.

    Beijos

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  4. Que lindeza.
    É triste ver que o ser humano abusa de certos direitos e acaba destruindo famílias inteiras.
    Que as crianças não percam a esperança de um mundo melhor!

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  5. Caralho!
    Ficou muito bom e me fez arrepiar em uns dois momentos no decorrer da leitura.
    Amo diálogos, principalmente esses que mostram a pureza que contém no coração das crianças.

    Muito bom.

    http://amar-go.blogspot.com/

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  6. se isto for enferrujada, não sei o que dizer. gostei do texto, me fez refletir

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  7. Me vi assistndo a essa cena de perto, enquanto te lia.

    beijo, moça

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  8. História comovente, adorei! Tu escreves bem.

    Beijos

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  9. como assim enferrujada? gostei mesmo, sério.
    bem, sobre essa história de "pacificação": "Agora vivemos o império do petróleo e do dinheiro - o resto é disfarce." (José Saramago)

    beijo

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  10. Eu adorei a historia, inspiradora, e é de fato o que acontece, muito bom! =**

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  11. Vamos participar do concurso que está rolando no blog? Não percam essa gente!!! http://www.gravidadeartificial.com/2011/11/concurso-fazendo-estampa.html#

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  12. Um aperto no coração quando paramos pra pensar neste mundo tão cruel, né?. :(

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  13. Real.
    Só Jesus nas nossas vidas.

    Beijos ♥

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  14. "O problema de vocês adultos é que não aprendem nunca."
    É disso que o mundo precisa, de mais pureza das crianças e menas hipocrisia dos adultos, e toda essa merda toda de capitalismo.

    Beeijos, sua linda.

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  15. Esse conto é muito lindo e nos leva a grandes reflexões.

    Continue assim =)

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  16. *.*
    Enferrujada que nada,esse aí é para ir dormir refletindo!

    Beijo!

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  17. Senti como se o diálogo se passasse dentro de mim.

    Adorei, flor!

    Um beijo.

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  18. Que lindo *_* Tão intenso, tão verdadeiro e tão questionador ao mesmo tempo. É uma pena que seja dessa forma, mas nem tudo é perfeito. Nem sempre as coisas de desenrolam como queremos. Infelizmente existe esse mal que se chama guerra e assola tanto os homens. Sonho muito com essa coisa que se chama paz...
    Lindo, lindo mesmo! Obrigada pelo carinho lá no blog, volte sempre viu? Grandes beijos :D

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  19. Ah, os olhos de uma criança... A gente tem que ver o mundo por trás deles, pra só assim essa porra toda funcionar do jeito certo. Colorido e saboroso como tem que ser.
    Tá belíssimo o conto, viu? Não pare não.

    :D

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  20. Você relatou algo real, ficou tão lindo. Parabéns, Gabi :)
    :*

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.