Nova Perspectiva

31 de março de 2011

A menina dos olhos cor de mel.

As luzes do quarto rosado estavam apagadas, a janela entreaberta, a cortina voava ao ser soprada pelo vento, a lua cheia iluminava parte do quarto causando sombras em diversas áreas. Ela estava lá, jogada contra a parede esquerda, agarrada a suas pernas, tentando fazer o mínimo de som possível  mas o choro atrapalhava a sua tentativa inútil de calar-se, os olhos cor de mel estavam fechados. Era possível ouvir as duas vozes que vinham de baixo, uma fina, aguda, de choro, uma grossa, rude, falando aos gritos, meio embriagada. Era uma sexta-feira comum, ele havia bebido, a mãe dela logo levaria alguns tapas, nada demais, nada que elas já não estivessem acostumadas. Os gritos cessaram após algum tempo, mas a mulher ainda chorava, a menina também. Era provável que a sessão espancamento tivesse começado, agora quem gritava era a mulher, de dor. Alguns minutos se passaram, passos na escada foram ouvidos, a menina aproximou-se ainda mais da parede, abriu os olhos, a luz do corredor iluminou o quarto quando a porta foi aberta, o homem robusto a pegou pelos braços tacando-a na cama, a mulher com a cara marcada pôs-se entre os dois aos berros.
- Não encoste na minha filha!
Ele deu-lhe alguns tapas na cara e gritou para que ela saísse, abriu o zíper da calça jeans, gritou mais uma vez com a mulher, ela continuou entre os dois, uma tentativa inútil de proteger o que mais amava, ele irritou-se e a tirou pelos braços, fechou a porta e a trancou. A menina abriu o olho, ele sorriu, a mulher gritou do lado de fora esmurrando a porta, a menina limpou o rosto e contraiu-se na beirada da cama, agarrou novamente as pernas, ele aproximou-se, passou a mão pelo rosto da menina, “diga para a mamãe que está tudo bem, certo?”, ela disse, ele a abraçou, “não tenha medo, fique calma, relaxe”. Ela continuou agarrada as pernas, ele a apertou com força, fez com que ela se solta-se, os gritos do lado de fora cessaram, os murros não.
A mulher caiu sobre a porta quando os gritos dentro do quarto começaram, aos soluções implorou pela morte, segundos depois por força, a menina continuou gritando do lado de dentro, mas não eram gritos normais. A mulher continuou a chorar. Passou a mão pelo rosto, limpou o sangue que lhe escorria, esperou com que aquele maldito barulho acabasse, escutou o trinco da porta, a maçaneta girou, ele a olhou deitada no chão, sorriu, caminhou até o fim do corredor, entrou no banheiro, olhou mais uma vez para mulher e em tom de sarcasmo disse “É o que acontece quando a mulher para de prestar, temos que escolher por carne nova”. Entrou no banheiro, fechou a porta. A menina ficou deitada na cama, a mulher levantou, caminhou até lá, passou a mão pelos cabelos encaracolados, sentou ao seu lado, a menina se mexeu, deitou a cabeça no colo da mãe, as duas choravam.
- Se o papai estivesse aqui ele não deixaria isso acontecer. – Disse a mulher em voz baixa.
- Mas ele foi embora mamãe, o papai nunca mais vai voltar, o papai morreu, só que você está aqui mamãe, você não deveria deixar isso acontecer. – Ela encarou a mulher.
- O que eu posso fazer?
Ficaram em silêncio, o chuveiro fez barulho, a mulher a encarou. Aquilo, aquele, ele, havia feito a única coisa que poderia fazer com que ela se cansa, pela primeira vez ela sentia-se na obrigação de ir embora e de proteger o que ainda lhe importava.
- Pegue alguma roupa, rápido. Nós vamos embora.
- Pra onde? – Disse a menina levantando-se.
- Pra qualquer lugar longe daqui.
As duas arrumaram-se, pegaram algumas trocas de roupa e saíram.
Ela sabia que ele iria atrás, por isso tinha que fazer uma ultima coisa antes.
Deixou a menina do lado de fora da casa e pediu para que ela esperasse lá, quieta, entrou, andou até o quarto, o chuveiro parou de fazer barulho, abriu a mesinha de cabeceira dele, pegou o pequeno revólver, apontou para porta, controlou a tremedeira, tentou pelo menos, esperou com que ele aparecesse, não o deixou falar, ao ver a sombra disparou três vezes, ele caiu, ela ficou parada por alguns minutos, andou até o corpo caído, abaixou, colocou a arma na mão dele, sentiu-se vingada, não por ela, aquilo não a importava, mas pelo que ele havia feito com a sua menina dos olhos cor de mel. Levantou-se, observou a cena, sorriu e foi embora.

16 comentários:

  1. você conseguiu fazer com que alguém se compenetrasse no texto ! este texto é maravilhoso , perfeito , é como alcóol , quanto mais , melhor e mais você quer ! parabéns ! continue escrevendo estes textos perfeitos e gostosos de ler !

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  2. Adorei o texto, muito legal !

    Seguindo, segue de volta?
    www.makeyourfashion.blogspot.com

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  3. Texto muito envolvente conseguiu prender minha atenção ate o final.

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  4. Texto narrado da melhor forma possível! Parabéns ..

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  5. Nem preciso falar que adorei o texto né?

    Beijos e um otimo fim de semana
    ..........................
    Novo post:RIMAS DO PRETO

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  6. Adorei o teu blog* Já tou a seguir, segues o meu? :) Passa a palavra do meu blog se gostares dele e se não te importares claroo *.* Bjs

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  7. Texto maravilhoso. Eu consigo imaginar os seus textos. Beijinhos.

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  8. Adorei seu texto...muito perfeito.
    Tô te seguindo, segue de volta?!
    Beijos flor..

    http://fabriziaalves.blogspot.com/

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  9. Gente... que textos ótimos! Adorei mesmo. Bem envolvente. Mesmo.

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  10. Comentando sobre o seu comentario:

    Gabi tenho tido dias ruins tbm minha querida, uma
    devastação sem fim por dentro. Sabe aquele frio que faz por dentro? Nao ha quem aqueça esse baticum, que nao para de jorrar sangue.
    Chego a ficar melodramática, mas so quem sofre conhece esse drama.

    Deixo aqui uma frase de Caio:

    “Encolhia-me no fundo dos lençois, o peso dos acolchoados esquentando o corpo, vontade de ficar uma vida inteirinha ali,esquecido de tudo,de todos”


    Bjs & abraços!
    Espero que esse tempo ruim passe minha querida!

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  11. Olá espectacular post , adorei muito, secalhar poderiamos fcar blog palls :) lol!
    Tirando as piadas chamo-me Eduardo, e como tu escrevo na internet embora o fofo da minha página é muito diferente deste....
    Eu desenvolvo páginas de poker que falam de bónus sem depósito sem arriscares do teu bolso......
    Apreciei bastante aquilo vi escrito!

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  12. Narrativa envolvente, leve e solta. Muito bom, Gabriela. Parabéns. Pois escreves muito bem.

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  13. Bem feito para o vagabundo, mereceu, haha.

    Gosto de ler os seus textos, embora eu tenha andado muito ocupado ultimamente, mas sempre que posso passo por aqui.
    Você bem que poderia escrever um livro, já pensou? Eu com certeza compraria. Até mais.

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  14. Confesso que quase chorei. Sim, por que eu sei que isso acontece em todo lugar e só de pensar, me bate uma tristeza profunda. Sabemos que não podemos virar a cara para a realidade. E para mudá-la, não será fácil. :x
    Nossa, não pisquei meu olho lendo esse texto. Você me carregou para dentro dele literalmente.
    um beijo :*

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  15. ai meu Deus gabi (pode te chamar assim?), o texto ficou perfeito, nada vulgar, apenas na medida exata. você fez uma ótima criação. parabéns mesmo, ficou ótimo.
    beijo

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.