Nova Perspectiva

31 de março de 2011

Recuso-me a dizer adeus.

Era sábado à noite, o café fervia no fogão, a lua engolia o céu, a casa estava iluminada apenas por um pequeno abajur que ficava ao lado do sofá. Ela levantou-se e seguiu até o fogão quando o apito insuportável soou, o café estava pronto, amarrou os longos cabelos negros em um rabo de cavalo bem mal feito, apanhou a xícara de dentro do armário e encheu-a até a boca, adoçou com duas pequenas colheradas de açúcar, desligou o gás, colocou o restante do café na garrafa térmica, caminhou até a sala, deixou a xícara sobre a pequena mesa de centro, ligou o antigo vídeo cassete. Hoje fazia um ano que ele já não estava mais lá, hoje fazia um ano que um pedaço dela havia sido arrancado. Colocou a fita de vídeo no lugar certo, pegou o controle remoto, programou a televisão no  modo av, deitou no sofá, cobriu-se com a manta avermelhada, bebeu alguns goles do café enquanto a gravação começava. "- Você a aceita como sua legitima esposa?. - Sim! - E você, o aceita como seu legitimo esposo? - Sim. - Então pode beijar a noiva.” As pessoas, as cenas e as palavras invadiram-lhe a alma arrancando de lá lembranças guardadas a sete chaves. Lágrimas. Pausou rapidamente o vídeo no momento em que a câmera o fitou de frente, como ele era lindo, como ele era dela. Aquilo já fazia tanto tempo, aquilo já fazia tanta falta. Enxugou o rosto com a manga do moletom manchado em um dia no parque, com ele. Bebeu outros novos goles de seu café, deixou o vídeo continuar, havia uma parte dele que jamais iria morrer, havia uma parte dele que viveria eternamente dentro dela... Mas a presença, o cheiro e as manias já não habitavam mais aquele mundo... O corpo, o gosto, os detalhes, por mais que estivessem guardados com ela não era igual, não era ele. Deixou que o fim chegasse, bebeu o restante do café, permitiu que outras lágrimas lhe escorressem a face, levantou, desligou o vídeo cassete que havia lhes sido dado de casamento, apagou a televisão. Caminhou até a fotografia sob o piano preto, disse para si e para ele “Feliz nove anos de casamento, meu amor”. Secou o rosto, andou até o quarto, vestiu-se de saudades e foi dormir.

22 comentários:

  1. E o que resta é erguer a cabeça e seguir em frente. O mundo não para de girar para que consertemos nossas vidas.
    Outro texto inundado de sentimentos. E a cada novo texto seu que leio, fica cada vez mais evidente que você é uma das poucas que sabe colocar o sentimento na ponta do lápis ao escrever!

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  2. Nossa Gabi, que texto lindo (ao mesmo tempo triste)
    É como o moço aí em cima disse, cheio de sentimentos. O clima de nostalgia que seus textos passam são tão profundos :B
    Há coisas que não se esquecem né :/
    Bgs :*

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  3. E só nos resta viver...
    bjs flor ;)

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  4. Que encanto, estou completamente apaixonada pelas suas palavras. Lindo texto.

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  5. Doce com gosto de saudades. Amei ^^

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  6. A primeira vez que leio, muito lindo, toca na alma e faz querer chorar! amei, tô seguindo.

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  7. Uau que encanto tudo aqui ,vou morar aqui posso ? :)

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  8. Não é fácil dizer certos adeus... Lindo texto. Beijinhos.

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  9. Nossa, está cheio de nostalgia e realidade. Pude sentir sua dor, incrível. Parabéns!
    beijos :*

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  10. queee texto lindo! Ameei pelas palavras.

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  11. Ah quando nada nos resta, resta-nos a Fé!
    Por mais dificil que seja abandonar o passado,
    precisamos sempre dar a volta por cima.

    Havera sempre tempo para o amor,
    para um recomeço. Enquanto tivermos 'papel'
    havera historia para escrever,

    Minha flor, linda noite pra ti!
    Bjs & abraços!

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  12. dificil essa realidade exposta no teu texto...doeu em mim...

    vc nao sumiu do meu blog, eu que sumi, deixei de postar, mas agora voltei! Bjocas!

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  13. vestiu-se de saudade'
    gostei disso!

    Aliás, vc escreve muito bem!


    Um beijo

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  14. "..vestiu-se de saudades e foi dormir."
    Incrívelmente incrível.

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  15. Prometo que volto para ler. Só passei rapidinho para dizer que meu novo selo oficial foi dedicado à você. Só passar em "Selos e Projetos" e pegá-lo. Obrigada ^^
    Beijos, Pamela.

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  16. Em certos momentos é o que nos resta, vestir-se de saudade e seguir em frente. Continuamos vivendo, mas lógico com aquela sensação de que tem algo fora do lugar, e até que aprendamos...

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  17. Excelente fragmento de vida... tão real!...
    Adorei o texto...


    Beijos meus,
    AL

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  18. e de que maneira! Obrigada pelo coment (:

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  19. Que saudade de te ler! Poxa, e quando volto encaro algo triste, mas bonito. Mas acho que a lembrança é o que nos faz continuar a viver e ter forças para isso, mesmo que a dor pareça não deixar que isso aconteça.
    Belíssimo, Gabriela!
    :*

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.