Nova Perspectiva

8 de janeiro de 2011

Frasco vazio.

Levantei ainda meio sonolenta e caminhei com passos de tartaruga até o banheiro, joguei um pouco de água no rosto e olhei o reflexo no espelho, amarrei o cabelo em um coque mal feito e voltei para o quarto. Meu marido ainda estava dormindo, andei até a janela e fiquei observando os pássaros, lembrei de como eu era parecida com aquelas adoráveis aves, solta, livre, sem amarraras nem gaiola, agora sinto-me como um pequeno beija flor engaiolado – mas é por pouco tempo. Suspirei.
- Continue assim querida, você fica linda nesta posição.
Fingi um sorriso e voltei a observar os pássaros no alto, eu ansiava voltar a ser como um deles.
Eu detestava estar casada, ainda mais com um velho babão, mas eu era tudo o que ele tinha e era por isso que estávamos juntos. O velho andava doente, o que me parecia maravilhoso, mas depois de um tempo as coisas começaram a desandar, a doença incurável passou a ser tratada com nova medicação e o infeliz começou a melhorar. Aquele homem miseravelmente rico precisava morrer logo, estava ficando insuportável lidar com as mãos dele em cima do meu corpo.
- O que você tem hoje, minha querida?
- Estou cansada Teodoro. É só cansaço.
Foi neste instante que o meu celular tocou, caminhei com os meus passos lerdos até a bolsa dourada, peguei o pequeno aparelho eletrônico e apertei a tecla verde.
- Alô. - Falei.
- Tem um frasco de veneno na porta de sua cozinha, é incolor e não tem gosto.
- Acho que você ligou errado.
- Retorne quando ele apagar, meu amor.
- Sem problemas.
Desliguei o celular e voltei para janela, Lúcio estava do lado de fora e acenou um tchau, sorri sem que o velho percebesse, depois ele começou a andar e pude vê-lo até vir a esquina.
- Você quer alguma coisa querido?
- Um café, se não for te incomodar.
- Não é incomodo algum.
Desci as escadas da casa que era exageradamente grande só para nós dois, e fui até a cozinha, fiz o café do jeito que ele gostava, abri a porta que dava para o lado de fora e peguei o pequeno frasco lilás, despejei o liquido por completo dentro da xícara branca, misturei com calma, respirei fundo por alguns minutos e subi as escadas sem pressa. Meu coração descompassou por alguns segundos, em seguida voltou tudo ao normal.
- Aqui está Teodoro.
- Ó Katia como eu tenho sorte.
- Não, querido, sorte tenho eu. Você pode ter certeza disso, meu amor.
- Você é a melhor mulher do mundo.
Sorri e lhe entreguei o café, eu já estava meio farta de toda aquela encenação. O infeliz deu alguns goles e algo o fez parar.
- Está quente. - Disse, por fim. - Assim que é bom!
Colocou a xícara sobre o criado mudo e se sentou para espreguiçar, mas não houve tempo para fazê-lo. Seus olhos ficaram pesados e foram vagarosamente se fechando, a respiração foi ficando mais fraca até desaparecer.
- Podia ter sido uma morte pior, amor. - Falei beijando seus lábios grossos e velhos.
Fui até a pequena e peguei o celular que havia tocado instantes atrás.
- Pronto meu amor.
- Mesmo?
- Sim, Lúcio, o velho está morto.
- Ótimo. Estou chegando.
Desliguei o aparelho e me sentei na cama, sem remorso, sem culpa, sem pena. Agora rica, e fria.

9 comentários:

  1. Amei..muito nem ha palavras...
    bjus

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  2. Muito bom...Não dá vontade de parar de ler.

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  3. "sem remorso, sem culpa, sem pena."
    Ótimo texto, Gabi!

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  4. Amei, parabéns pelo blog, parabéns e sucesso

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  5. Adorei: " Podia ter sido uma morte pior meu amor. Falei beijando os lábios grossos do velho gordo, gordo e podre de rico. " Maravilhoso! Sem mais.
    Parabéns. Te sigo. Passa no meu quando der.



    milhõesdebeijos. ;*

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  6. Seus textos como sempre, estremamente bem feitos.
    Parabéns, novamente (:

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.